terça-feira, 13 de julho de 2021

Fora do baralho

 


Sutil, ele sempre chegou tarde. Ou cedo demais ao longo da sua caminhada. Mas sempre chegava cheio de bons sentimentos, de palavras bonitas e de flores. Sempre. Ele sempre achou que elas bastassem porque a menina de mãos recolhidas, sempre, parecia muito feliz, até que, um dia, um meio dia, quando ele menos esperava, porque achava que já tinha a chave da porta desde o instante em que ficaram, ela veio e, com um jeitinho, que o deixou muito sem jeito, disse sem meias palavras, sem qualquer atenuação ao que dizia: "Não me leve a mal, você já é carta fora do baralho, meu amor”. Ele arfou na hora. E, ainda arfando como o mar no porto, mas afinado com os tempos modernos dos "ficantes" ou da amizade colorida, diz numa roda de amigos que não doeu, mas ele agora não sabe o que fazer do viver, sabendo que há em sua lapela, inconsútil, um bilhete azul com os restos das palavras que ela deixou sem remorsos. 

(José Carlos Sant Anna)


7 comentários:

  1. A separação de quem se ama é sempre dolorosa.
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    Cumprimentos
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  2. Acho que ele não jogou na hora certa, ou não tinha os trunfos para ganhar a partida, de qualquer forma foi um canto bem triste.
    Um texto perfeito, como aliás é do seu jeito.

    Um beijinho amigo José Carlos.


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  3. Nessa hora seria bom ter um amigo por perto para falar 'aguenta firme', quem sabe a 'menina de mãos recolhidas' tenha guardado alguma carta nesse baralho doido que é essa tal amizade que descoloriu. rs
    Poética declaração Jcarlos
    _ ah os poetas! como escrevem bonito e adoram fingir que sofrem ... rs
    Meu abraço e feliz noite.

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  4. Ahh, eu bem que esperava um final feliz, um "the end" com a tal menina dizendo : volta aqui!! Eu estava brincando contigo, meu amor!! Mas eram "ficantes" esse jeito moderno de relacionar sem compromisso. Ja era de se esperar. Mas o coracao dele estava já envolvido. Que pena! "Palavras bonitas e flores", "as mãos recolhidas" e na lapela o "bilhete azul", o resto é silêncio.

    Encantada com a poesia que evola do texto,querido poeta José Carlos!!!

    Beijos sem bilhete azul, Sant Anna!!!!

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  5. Pois é, nem sempre o que o outro oferta é o suficiente, de fato! Talvez, ele, por excesso de segurança em si e na situação, não achou que iria virar carta fora do baralho. E aí, quando virou, apesar das palavras bonitas e flores, vê o que perdeu, dai é que fica querendo ainda mais.
    O amor não se faz somente com palavras bonitas, se faz com atitudes claras em demonstrar os sentimentos. Parece que faltou isso, para passar de "ficantes" a algo mais sério, talvez, desculpe José, eu divago demais...
    Vim agradecer sua visita e palavras deixadas lá no meu Blog e te dizer que com absoluta certeza, você sempre será muito bem vindo por lá!
    Você escreve poética e lindamente!!! Te sigo por aqui!
    Um abraço
    Valéria

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  6. Vale mais um bom desengano do que viver enganado!
    Gostei muito de ler.

    Abraços!

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  7. Un poema.intenso , es triste a veces el amor. Un abrazo

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