sexta-feira, 11 de junho de 2021

Ampulheta

 



Pequenos feixes de luz surgem. É um tempo lento pelas lentes da minha memória. Turva estrela e borras de café no fundo da xícara. E crescem as intensidades dos feixes de luz, como a noite que se guarda, nos refúgios tardios, para o amanhã de sol, aurora próxima. E as histórias farfalham sobre a toalha da mesa da casa velha. E atravessam minhas pupilas distorcidas à procura de foco no meu mapa. E turvam meus olhos no meio da noite. Em nenhum lugar. Ou de jeito nenhum. Como as minhas palavras. Sob um rio barrento. Inspiro. Expiro. Madrugada já chegou. Ouço o meu sopro e os meus ossos gritam. Contra as folhas de cansanção na carne que não negaceiam o passado da escravidão. Sublimada mas não esquecida. Quando o som dos atabaques se espraia e rasga minha pele parda, exorcizo fantasmas sem que ninguém perceba. E se não trago medos é porque, ainda na escuridão, aprendi a discernir a luz verde nos semáforos das esquinas da vida.

(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


8 comentários:

  1. As vezes, basta um perfume trazido pelo vento e reconhecido, uma música, um sabor, pra alavancar conteúdos guardados na famosa "caixa preta" da mente. Aí é um Deus nos acuda , porque emoções são despertadas, sentimentos afetados, pensamentos evocados ....( nessa ordem mesmo) .
    O EU poético, então , se encarrega de expressar em palavras , lindas palavras, do arsenal do escritor, de forma brilhante.
    Só tenho uma dúvida, quanto a "ampulheta" da memória: até que ponto ela poderá nos afetar, se nós já não somos a mesma pessoa e não estamos mais naquelas situações emocionais de quando ocorreu as experiências ............

    Brilhante texto, brilhante autor, que por um poder desconhecido me alavancou conjecturas em torno de memórias ...

    Beijo carinhoso, SantAnna!!

    ResponderExcluir
  2. Primeiro fiquei rendida ao vídeo, a dança da solidão, musica ritmada e a voz linda de Silvia Perez Cruz.
    Depois o seu texto poético, onde as palavras são sentires, que nos comovem. Um passado doloroso, um presente, que embora solitário, continua temerário e luminoso.

    Um beijinho, amigo José Carlos.

    ResponderExcluir
  3. Atravessei a luz verde de todos os semáforos de minha vida e aqui estou outra vez... Um abraço, José Carlos!

    ResponderExcluir
  4. Desde la hermosa musica seleccionada que acompaña el texto, me dejo invadir por esos sentimientos que fluctúan, desde un pasado quizás no tan bueno, hacia un presente en donde el protagonista parece darse permiso para vivir y sobre todo para tener esperanza. Un bello exto José Carlos!!

    ResponderExcluir
  5. Um grito pelo re-nascimento da manhã, na verde-luz dos semáforos sinalizando os caminhos do mapa.

    Abraço!!

    ResponderExcluir
  6. Olá, José Carlos.
    Pois não é que por pouco deixo passar sem a leitura obrigatória a este belíssimo poema em prosa, que certamente Baudelaire teria assinado com muito gosto, mas para minha sorte, andando por aqui vi que faltava a minha leitura. Parabéns, Mestre!
    Aproveito e aproveito para agradecer a partilha do vídeo com essa peça inigualável. A excelente cantora não conhecia, mas conheço muito o Diogo Nogueira que saiu igual ao pai, o grande João Nogueira.
    Uma boa semana, com os cuidados com a saúde.
    Grande abraço, amigo.

    ResponderExcluir
  7. Medir o tempo por uma ampulheta e sentir que vem em pequenos feixes que a memória teima em guardar. E a madrugada avisa que vai amanhecer aí pensamos de que adianta quando não sabemos amanhecer dentro de nós mesmos... Seu texto faz pensar.
    te abraço, apesar do mar.

    ResponderExcluir