segunda-feira, 21 de junho de 2021

Solfejando

 


Até quando o outono esgota a fome de cristais e a ausência dos corpos mostra que a morte é a aurora próxima depois que um amor atravessou o seu peito?

Em que telhado, raso e vazio, o fogo-fátuo esplende voejando nos cabelos da moça que um dia foi perseguida em sonhos mascando tutifruti? 

Tarde demais, menina! Apita! Apita! É chegada a hora de aguardar a partida do trem de hortelã e seguir a viagem escutando baixinho no radinho de pilha o salmo inventado para as noites de frio que emudecem o piano enquanto o concerto das brumas acena lá do alto em notas breves! 


(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Ampulheta

 



Pequenos feixes de luz surgem. É um tempo lento pelas lentes da minha memória. Turva estrela e borras de café no fundo da xícara. E crescem as intensidades dos feixes de luz, como a noite que se guarda, nos refúgios tardios, para o amanhã de sol, aurora próxima. E as histórias farfalham sobre a toalha da mesa da casa velha. E atravessam minhas pupilas distorcidas à procura de foco no meu mapa. E turvam meus olhos no meio da noite. Em nenhum lugar. Ou de jeito nenhum. Como as minhas palavras. Sob um rio barrento. Inspiro. Expiro. Madrugada já chegou. Ouço o meu sopro e os meus ossos gritam. Contra as folhas de cansanção na carne que não negaceiam o passado da escravidão. Sublimada mas não esquecida. Quando o som dos atabaques se espraia e rasga minha pele parda, exorcizo fantasmas sem que ninguém perceba. E se não trago medos é porque, ainda na escuridão, aprendi a discernir a luz verde nos semáforos das esquinas da vida.

(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


sexta-feira, 4 de junho de 2021

Chuvosa, porém quente

 


Os gatos, felizes, brincam com suas antenas como se bigodes fossem na poltrona da sala na tarde chuvosa, enquanto a adolescente e o namorado, no mesmo diapasão, abrem suas asas e voam em sílabas breves degustadas pelos caminhos do Peloponeso, quando os olhos se tocam, os braços se abraçam, os lábios se beijam sem que nada lhes pareça estranho no meio da tarde chuvosa. Após uma breve explosão, lacerações visíveis gotejam dos corpos suados como se fosse a chuva no meio da tarde, alagando as vias do bairro, até que a adolescente, com os olhos bem acesos, pergunta, engolindo as palavras, ao jovem mancebo se ele ainda tinha fôlego para soprar as nuvens para que elas continuassem se derretendo.


(José Carlos Sant Anna)