sexta-feira, 23 de julho de 2021

Fotograma

 


A falta de ar começou com a pandemia. No Verão, passado. Ainda presente, a pandemia. E a falta de ar. Do Verão. E do verão. De mansinho o sol foi se apagando. E a falta de ar, o que eu lhes digo, como um polvo, estendeu seus tentáculos pelo Outono. Pelo Inverno. E outra vez pelo Verão. Pelas casas, pelos bairros, pelas cidades, em todos os rincões. Pelos sonhos, pela vida afora. A falta de ar, os mesmos olhos de antes, incide verticalmente nas pessoas. Cerro os  punhos quando vejo que a falta de ar se enreda sutilmente em quase toda a gente em torno de mim. E quanto é difícil adivinhar, no 'baile de máscaras', quem é quem, e a pandemia a alcançar outra vez o Inverno. Toda a gente tem o olhar cansado. E tristes silêncios. Ao girar em corrupios, a falta de ar ruge pelos beirais da vida sem pardais em todos os quadrantes. Haja fel. A falta de ar corrói a vida de cada um. Passará? Passaremos?


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 13 de julho de 2021

Fora do baralho

 


Sutil, ele sempre chegou tarde. Ou cedo demais ao longo da sua caminhada. Mas sempre chegava cheio de bons sentimentos, de palavras bonitas e de flores. Sempre. Ele sempre achou que elas bastassem porque a menina de mãos recolhidas, sempre, parecia muito feliz, até que, um dia, um meio dia, quando ele menos esperava, porque achava que já tinha a chave da porta desde o instante em que ficaram, ela veio e, com um jeitinho, que o deixou muito sem jeito, disse sem meias palavras, sem qualquer atenuação ao que dizia: "Não me leve a mal, você já é carta fora do baralho, meu amor”. Ele arfou na hora. E, ainda arfando como o mar no porto, mas afinado com os tempos modernos dos "ficantes" ou da amizade colorida, diz numa roda de amigos que não doeu, mas ele agora não sabe o que fazer do viver, sabendo que há em sua lapela, inconsútil, um bilhete azul com os restos das palavras que ela deixou sem remorsos. 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 21 de junho de 2021

Solfejando

 


Até quando o outono esgota a fome de cristais e a ausência dos corpos mostra que a morte é a aurora próxima depois que um amor atravessou o seu peito?

Em que telhado, raso e vazio, o fogo-fátuo esplende voejando nos cabelos da moça que um dia foi perseguida em sonhos mascando tutifruti? 

Tarde demais, menina! Apita! Apita! É chegada a hora de aguardar a partida do trem de hortelã e seguir a viagem escutando baixinho no radinho de pilha o salmo inventado para as noites de frio que emudecem o piano enquanto o concerto das brumas acena lá do alto em notas breves! 


(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Ampulheta

 



Pequenos feixes de luz surgem. É um tempo lento pelas lentes da minha memória. Turva estrela e borras de café no fundo da xícara. E crescem as intensidades dos feixes de luz, como a noite que se guarda, nos refúgios tardios, para o amanhã de sol, aurora próxima. E as histórias farfalham sobre a toalha da mesa da casa velha. E atravessam minhas pupilas distorcidas à procura de foco no meu mapa. E turvam meus olhos no meio da noite. Em nenhum lugar. Ou de jeito nenhum. Como as minhas palavras. Sob um rio barrento. Inspiro. Expiro. Madrugada já chegou. Ouço o meu sopro e os meus ossos gritam. Contra as folhas de cansanção na carne que não negaceiam o passado da escravidão. Sublimada mas não esquecida. Quando o som dos atabaques se espraia e rasga minha pele parda, exorcizo fantasmas sem que ninguém perceba. E se não trago medos é porque, ainda na escuridão, aprendi a discernir a luz verde nos semáforos das esquinas da vida.

(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto