sexta-feira, 11 de junho de 2021

Ampulheta

 



Pequenos feixes de luz surgem. É um tempo lento pelas lentes da minha memória. Turva estrela e borras de café no fundo da xícara. E crescem as intensidades dos feixes de luz, como a noite que se guarda, nos refúgios tardios, para o amanhã de sol, aurora próxima. E as histórias farfalham sobre a toalha da mesa da casa velha. E atravessam minhas pupilas distorcidas à procura de foco no meu mapa. E turvam meus olhos no meio da noite. Em nenhum lugar. Ou de jeito nenhum. Como as minhas palavras. Sob um rio barrento. Inspiro. Expiro. Madrugada já chegou. Ouço o meu sopro e os meus ossos gritam. Contra as folhas de cansanção na carne que não negaceiam o passado da escravidão. Sublimada mas não esquecida. Quando o som dos atabaques se espraia e rasga minha pele parda, exorcizo fantasmas sem que ninguém perceba. E se não trago medos é porque, ainda na escuridão, aprendi a discernir a luz verde nos semáforos das esquinas da vida.

(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


sexta-feira, 4 de junho de 2021

Chuvosa, porém quente

 


Os gatos, felizes, brincam com suas antenas como se bigodes fossem na poltrona da sala na tarde chuvosa, enquanto a adolescente e o namorado, no mesmo diapasão, abrem suas asas e voam em sílabas breves degustadas pelos caminhos do Peloponeso, quando os olhos se tocam, os braços se abraçam, os lábios se beijam sem que nada lhes pareça estranho no meio da tarde chuvosa. Após uma breve explosão, lacerações visíveis gotejam dos corpos suados como se fosse a chuva no meio da tarde, alagando as vias do bairro, até que a adolescente, com os olhos bem acesos, pergunta, engolindo as palavras, ao jovem mancebo se ele ainda tinha fôlego para soprar as nuvens para que elas continuassem se derretendo.


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 11 de maio de 2021

Aceno


 

A sós com os grãos de areia, digo sim à luz aberta dos seus poros e, ao tumulto da ebulição, digo não; e, sim, ao futuro com medo de quando ele chegar não me encontre. E sim à pulsação serena da escrita, pão nosso de cada dia, águas que não se cansam de brotar de fonte escondida, e ao encanto da memória e ao bulício do devaneio, e à chama do ócio. E desleio qualquer outro sopro a não ser o da vida porque tenho de vivê-la, atento a qualquer gesto distraído que ela possa fazer para desviar-me do seu caminho. 

Do Caderno de Tão Preto

(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 4 de maio de 2021

Do Diário de Tão Preto

 


Segunda-feira, 3 de maio, em cápsulas tatuadas de bem-estar, lá vou eu em convite irrecusável. Puro encanto os caminhos do barro no "Cuento", de Ricardo Pardo, lido pela delicadeza da voz de A. G.. E a água escorre entre seus gestos e palavras, escandidos, e o doce ruído faz-me vê-la e ouvi-la, recolhido, em silêncio, seguidas vezes. É o milagre da sagração do vídeo. Corpo e alma. Entrego-me em cada gesto, em cada movimento, em cada palavra evocada. Memorizados, gestos, palavras, bocas, mãos ativam outros sentidos. E de vê-la e ouvi-la tantas vezes, nasce o poema. E não é tudo. Essa água pura tem sido o lume que alimenta minha sede e habita meu corpo todas as noites. É dela a música de tons mais vibrantes que embala meus sonhos. 

 

José Carlos Sant Anna