terça-feira, 11 de maio de 2021

Aceno


 

A sós com os grãos de areia, digo sim à luz aberta dos seus poros e, ao tumulto da ebulição, digo não; e, sim, ao futuro com medo de quando ele chegar não me encontre. E sim à pulsação serena da escrita, pão nosso de cada dia, águas que não se cansam de brotar de fonte escondida, e ao encanto da memória e ao bulício do devaneio, e à chama do ócio. E desleio qualquer outro sopro a não ser o da vida porque tenho de vivê-la, atento a qualquer gesto distraído que ela possa fazer para desviar-me do seu caminho. 

Do Caderno de Tão Preto

(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 4 de maio de 2021

Do Diário de Tão Preto

 


Segunda-feira, 3 de maio, em cápsulas tatuadas de bem-estar, lá vou eu em convite irrecusável. Puro encanto os caminhos do barro no "Cuento", de Ricardo Pardo, lido pela delicadeza da voz de A. G.. E a água escorre entre seus gestos e palavras, escandidos, e o doce ruído faz-me vê-la e ouvi-la, recolhido, em silêncio, seguidas vezes. É o milagre da sagração do vídeo. Corpo e alma. Entrego-me em cada gesto, em cada movimento, em cada palavra evocada. Memorizados, gestos, palavras, bocas, mãos ativam outros sentidos. E de vê-la e ouvi-la tantas vezes, nasce o poema. E não é tudo. Essa água pura tem sido o lume que alimenta minha sede e habita meu corpo todas as noites. É dela a música de tons mais vibrantes que embala meus sonhos. 

 

José Carlos Sant Anna


terça-feira, 20 de abril de 2021

Coradouro




No curso do teu rio
a chama, os relevos,
o galope
amoroso das palavras,
a música
das tuas águas
e o sol,
reverberando
no teu corpo,
avivam
a geografia da minha fome. 

(José Carlos Sant Anna) 


sábado, 30 de janeiro de 2021

havaianas, ave!


                                
                               Para Lis 


ah havaianas ah

num lampejo os pés

seres que se aprazem

 

em tantos passos

vislumbrados se cobrem,

 

(cobrindo-se do amor antigo

de chinelos sem encantos

à produto de exportação)

 

sem deixar de mostrar detalhes

dos artelhos de unhas esmaltadas

 

dos chinelos de solado em palha de arroz

memória de agricultores japoneses

veio a inspiração

 

até se tornar um reclame na voz de chico Anísio:

"não deformam, não soltam as tiras

e não têm cheiro".

 

ah havaianas ah

num lampejo a caminho do sol 

se entrevê

um céu de distraídas ânsias! 


(José Carlos Sant Anna)