sexta-feira, 19 de junho de 2015

Linhas cruzadas






– Vai, me abraça, me aperta, me prende em suas pernas,... – Enquanto ela sussurra nos seus ouvidos estes versos da MPB, ele pensa "que safadinha não sei mesmo o que ela quer..., mas já tenho certeza do que estou prestes a perder...”
Depois ela diz com lágrimas nos olhos que não voltaria mais àquele quarto. Era a última vez que se encontravam nas tardes mornas do verão, assim às escondidas, pois eles sempre souberam que aquela relação não tinha passado nem futuro, era só um presente que se acabava a cada vez que repunham a roupa, fechavam a porta do quarto do hotel e saíam.
Se acontecia alguma coisa depois, era um ou outro telefonema na maioria das vezes para marcar um novo encontro em que, fervorosa, ela diria, atropelando as palavras, que precisavam se encontrar... que ela tinha uma surpresa... ele ia adorar... que já estava feito lagartixa, subindo pelas paredes... que esta semana já tinha se masturbado duas vezes pensando nele... que aquela escola estava lhe roubando todo o tempo que dispunha para ficar com ele... que não sabia por que fazia aquela pós, uma vez que o que precisava mesmo era ganhar algum dinheiro... que ele não ligava pra ela... E perguntava-lhe seguidas vezes e você? E você? Pensou em mim? Ficava na linha ouvindo a sua respiração, em muito parecida com a dela, ofegante, do outro lado.
Ela vestia a roupa cabisbaixa, cobrindo primeiro os seios, acariciando-os antes de cobri-los com o soutiã, como se ainda fossem as mãos dele, bolinando-os, depois põe a blusa e começa a fechar os botões sem pressa. Pega a saia sacudindo-lhe a poeira, pois ela ficara no chão, estira sobre a cama, empina a bunda, para mostrar-lhe o que ele estava perdendo ao deixá-la ir embora, em seguida, veste-a, sem pôr a calcinha, que ficara enrolada numa cadeira como se fosse um canudo, apanha a bolsa, os livros e cadernos que trouxera nas mãos, e sai sem dizer uma palavra. Era definitiva a separação, é o que ela parece querer dizer.
Com impulso, ele avança sobre calcinha desenrolando-a lentamente, depois esfrega no seu nariz e aspira aquele odor excitante que ficara ali, para sempre, guardando-a como a um troféu. E, em seguida, pela janela, vê quando ela atravessa a rua em direção ao ponto de ônibus. Ainda espera debruçado, olhar perdido, até vê-la fazer um sinal para um taxi.
Ele balançava a cabeça do outro lado da linha, sem que ela percebesse o movimento que fazia. Abria a gaveta da sua mesa de trabalho, olhava o retrato dela escondida entre os seus papéis, rascunhava a palavra “muito” várias vezes numa folha de papel, sabia que o dia em que levasse essa questão para o seu analista fundiria a cabeça dele. Que seriam dezenas de sessões para decodificar a palavra ‘muito’ rasurada n vezes em pedaços de papel, quando não vinha acompanhada da palavra Maria. E ficava mudo em seguida.
E ela perguntando se tinha acontecido alguma coisa, porque ele estava tão calado, se não queria mais vê-la, o que ela tinha feito de errado... Se ele sabia que ela já estava  depilada porque não queria que a visse peluda... Se isso não o deixava excitado... que não aguentava mais aquela casa, lavando pratos o dia inteiro... E ameaçava chorar, em seguida dizia “não, ele não vai ter o prazer de me ver chorar”..., baixinho, mas ele a ouvia do outro lado e, quando ela perguntava se ele tinha ouvido alguma coisa, dizia-lhe que não... 
Na cabeça, ele ruminava um monte de perguntas enquanto o canal Brasil exibia Luz e Trevas, o bandido da luz vermelha. Seus olhos não piscavam olhando a telinha em que Ney Matogrosso, de calça clara, sem camisa, barba por fazer, atrás das grades questionava tanto a sua vida, comparando-a a um pêndulo que não sabia o que queria, oscilando de um lado para o outro, quanto ele o fazia agora por motivos diferentes.
A vida é assim, um turbilhão de desafios que um domingo à noite deságua quando a perspectiva da segunda feira vem à tona e ele, naquele instante, fingindo que acompanhava aquela história já apagada da memória de quase todos que conheceram o seu lado trágico, olha para trás e percebe que fora mais um domingo a escorrer chocho por entre os dedos, e que ele nada fizera para engrandecê-lo, nada de útil fizera, além de ter tão somente zapeado pelo mercado, tal como o fizera ainda há pouco com a TV – até se deparar com Ney Matogrosso na pele de ator –, escolhendo frutas e legumes para a semana vindoura. Era o que fazia de melhor atualmente.
Ficava horas zanzando no mercado. Para ele, entrar no mercado e sair pelos seus corredores, olhar atento em cada rótulo, examinar cada produto como se fosse um fiscal da vigilância sanitária, mas sem mover uma palha para denunciar qualquer anormalidade encontrada, era uma descoberta nova. Quase uma nova paixão. 
Seguia arrastando o chinelinho, esmaecido de tanto sol que recebia na varanda de apartamento, que ele não se dispunha a trocá-lo, embora já tivesse um novinho em folha. Ela lhe dera no último encontro, e seguia apalpando tudo que lhe despertasse uma contemplação vaga nas prateleiras e gôndolas do mercado.
Daquela tarde distante o silêncio é o que resta no vale-tudo das chamas do escritor barroco, redundante, prolixo, como ela o rotulava, só para provocá-lo. Os dias se movem e que culpa se tem pela sua peregrinação? Pela corrida sem freios? Pela dança milenar? 

17 comentários:

  1. Amigo escritor,
    seu texto é muito bom!!!!
    Agradeço sua visita ao meu blog!
    gosto muito de textos bons e com sensualidade como o seu!
    Avise-me sempre que tiver post novo!
    http://www.elianedelacerda.com

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  2. Olá,vim agradecer o seu comentário.
    Gostei muito do seu texto.
    Boa noite.

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  3. Olá José Carlos,

    Em primeiro lugar, obrigada por sua visita e comentário.
    Sua escrita é muito bem colocada. A narração detalhada leva o leitor a visualizar as cenas descritas e o envolve na leitura do texto, e isto é uma qualidade para quem escreve.


    Abraço.

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  5. Amigo escritor,
    passando só para agradecer sua visita ao meu blog,
    e quando tiver post novo,
    avise,ok?
    Vc é ótimo escritor!!!!!
    http://www.elianedelacerda.com

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  6. Ele parece gostar dela, ela parece gostar dele, mas falta um algo a mais... o amor. Um ingrediente indispensável para quem quer partilhar a vida em comum.
    Apesar de triste, é uma história muito bem construída e uma delicia de ler.

    Beijinho.

    Ps: Sobre sua pergunta lá no blog, estou terminando de ler "No caminho de Swann". :)

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  11. História repleta de sensações, cheiros e olhares humanos.

    Não há como contornar essa vida que passa, esses episódios que nos fazem a vida ao tirá-la.

    Beijos

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  17. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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