terça-feira, 19 de maio de 2015

Nas dobras do dia

Foto: acervo pessoal

Dez horas da manhã de uma segunda-feira. Ao vê-la, o técnico de equipamentos eletrônicos, um antigo prestador de serviços da empresa, estacou os passos na entrada da portaria. Primeiro, fê-lo dissimuladamente e, em seguida, foi desnudando aquele corpo com o olhar enquanto fingia que procurava alguma coisa na maleta, pois era a primeira vez que ele via aquela moça na recepção.
Não se furtaria de forma alguma a dizer-lhe qualquer coisa, mas, além da distância que os separava, havia um leão de chácara ao seu lado, inibindo um gesto mais ousado da sua parte, embora quisesse fazê-lo a qualquer preço porque, sem explicação, ela tinha virado a sua cabeça e estava sem um estepe para aquela situação tão inesperada. Não sabe porque achou que já estivesse vacinado por conta dos quilômetros rodados... E como se enganara, redondamente.
O leão de chácara era um dos seguranças da portaria da empresa. O papel dele era ajudá-la no controle na saída dos prepostos que tinham tido acesso ao coração da empresa para a prestação de algum serviço, como ele fazia, há anos, com uma pontualidade britânica. Ele sabia que aquele era o local de trabalho de ambos, seria preciso reconhecer os limites para não pôr tudo a perder, era o que estava fazendo, enquanto ruminava a sua vida mordendo seguidas vezes a língua, um sestro que o perseguia quando ficava muito tenso.
O cara, não achando o que procurava na maleta, não conteve um suspiro e disse, quase em voz alta, após olhá-la mais uma vez da cabeça aos pés, na farda azul da empresa, calça justa, desenhando-lhe o sexo:
– Que bela mulata! É um prato para quatro talheres. É ela, sim; dessa vez, digo adeus à solidão da minha vida!
Talvez tenha se arrependido depois do que pensou, mas intuíra que correria atrás daquela mulher a vida inteira. Sentira-se na hora enfeitiçado pelo olhar cigano, traiçoeiro, que ela lhe impingira.
O técnico ia à empresa duas ou três vezes por semana para a manutenção das máquinas. Chegava, estacionava o carro e se dirigia à portaria para apanhar o crachá que lhe dava acesso à empresa. Cumpria esse ritual antes de chegar ao pátio da empresa, com seus amplos jardins, agora com os olhos postos na outra portaria.
Munido do crachá de visitante, seguia pelo pátio, por um declive que o levava ao centro de triagem de encomendas, sempre olhando para trás, para saber se ela o acompanhava também com o olhar. Pelo caminho cumprimentava a todos, parando para trocar alguma prosa com um ou outro, o que servia como pretexto para volver o olhar para cima, procurando também o seu. Era benquisto na empresa como se fosse um dos seus funcionários, era como  justificava para si mesmo o descer vagarosamente até chegar à outra recepção.
Naquela manhã, desceu com aqueles dentes alvos na cabeça e aqueles cabelos escovados, aquele corpo escultural, descendo-lhe pelo rosto, ombros, tronco, baixo ventre, fazendo-o chegar eufórico e arfante ao seu destino.
Todos estranharam na sala de máquinas aquela euforia desmedida. Mas, como havia uma afetividade muito grande com os funcionários, aquele estado foi logo esquecido por todos, voltando-se para as suas tarefas, como de hábito.
Logo descobriu que estava namorando a moça sem que ela o soubesse.  Mas ela o sabia, sim! Quando ele chegava, não podia vê-la conversando com um dos seguranças da empresa, que perdia imediatamente o seu bom humor. Todos percebiam que havia alguma coisa errada. Também deu um jeitinho de falar com o seu chefe para que a alternância dos dias de visita para manutenção dos equipamentos na empresa coincidisse com os dias de trabalho dela, pois ela trabalhava um dia inteiro e folgava no outro. Assim, o técnico a via duas ou três vezes por semana, mas quase não se falavam porque a recepção a que ela atendia não era a mesma por onde ele entrava e saía, salvo quando tinha peças pesadas para retirar. Apenas cumprimentos formais, mas foi assim que aprendeu o nome dela e lhe disse os primeiros gracejos, contando com o seu sorriso cúmplice.
Quando ela foi transferida para a portaria de baixo, essa intimidade foi ganhando corpo e alguns hectares de terra, e não demorou muito já tinha identidade. Depois de três semanas, já estavam jantando juntos e dormindo num motel. E ele, sem que percebesse, morria ainda mais de amores pela moça, e tanto lhe prometeu velar o seu sono e levar-lhe café na cama que, depois de dois meses, já estavam morando juntos num apartamento térreo, alugado. Era ali que ele estava cumprindo suas promessas.
Foram seis meses intensos, de entrega mútua. O técnico já não queria ficar na rua, saía do trabalho e corria para casa para encontrar a sua mulata fogosa, a sua putinha, como ele sussurrava à noite no seu ouvido depois das fantasias que ela inventava para as orgias sexuais entre as quatro paredes do apartamento.
Um belo dia, na folga dela do trabalho, ele quis surpreendê-la e voltou para casa mais cedo e, ao entrar no quarto, percebeu um vulto sorrateiramente saindo pela janela. Suas roupas tinham ficado para trás porque não houve tempo senão para fugir do flagrante. O técnico desabou abúlico na poltrona que havia no quarto, vendo tudo ruir-se à sua frente. Uma catástrofe.
Depois de meia hora, a moça ainda estava nua na cama, mostrando-lhe a beleza do seu corpo. Ele ainda sentiu alguma coisa intumescer-se entre as suas pernas, de tanto admirar aquela escultura depilada à sua frente. Mas não se mexeu. A moça compreendeu a situação, então, se levantou, caminhou para o banheiro, tomou uma ducha. Vestiu-se e começou a arrumar a mala que trouxera ao se aboletar no apartamento para dividir as alegrias com ele. Achava que aquela altura as alegrias estavam perdidas. E para sempre.
Embora não precisasse de mais do que quinze minutos, levou quase uma hora para arrumar a mala com os seus pertences, na esperança de que ele lhe desse umas boas lapadas de facão sem lhe tirar o couro, o que ela bem merecia, mas a deixasse ficar, perdoando-a. Como percebeu que era em vão a sua espera. Pegou a mala e saiu, sem dizer-lhe adeus.
Quando ele ouviu a porta bater, caiu em si. Ainda levou quinze minutos para se refazer da perda, então, apanhou umas mudas de roupa, enfiou numa sacola de papel, pegou a chave do carro e saiu atrás dela. Encontrou-a no ponto de ônibus mais próximo. Fez-lhe sinal para que ela entrasse no carro. Ela obedeceu em silêncio. Quando ele acelerou o carro, ela se encorajou a dizer-lhe alguma coisa, ensaiando um pedido de desculpas. Ele pôs dois dedos nos seus lábios para que ela se calasse e seguiram para um hotel de luxo da cidade. E tomaram o café da manhã no quarto antes de saírem para o trabalho.
Agora se tornou uma rotina na sua vida, como o ciclo menstrual. De seis em seis meses, mais ou menos, sem que agora passe pela cabeça dela a surra de facão, ele a apanha resignadamente num ponto de ônibus junto com a mala e seguem para aquele hotel de luxo sem reserva, mas com o café da manhã no quarto.

José Carlos Sant Anna