sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Chiste


Na luz vertical, doutor Sigmund
com aquele velho ar blasé 
que não enxerga o próprio ego 
tateia pelo consultório 
procurando 
na luz difusa do abajur  
impacientemente
o corpo da paciente.


E no bazar do inconsciente, 
os momentos íntimos das coisas 
[só os das coisas]
se confundem com o café expresso 
afogado de pura ciência 
imersos em granulados de ópio 
devaneios 
no denso perfume das rubiáceas, 
enquanto de pince-nez Descartes,
figura de retórica,
tomando sol na varanda
do consultório 
de bermuda à Agostinho Carrara 
não está nem aí para a dança flamenca
teia de ávidos enredos,
que rola no divã de púrpura, 
em que o curvilíneo corpo   
é o objeto atrás do sujeito
inadimplente.

(José Carlos Sant Anna)

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20 comentários:

  1. Estive aqui. Como sempre, gostei muito de te escutar...
    Aproveitei, fechei os olhos e revi todo o ambiente descrito por você.
    AbraçO

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  2. Imagino a experiência que seria estar no consultório dele. O problema é que os "momentos íntimos das coisas", para ele tinham sempre um significado muito...carnal rsrs.
    Beijos José Carlos!

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  3. Gostei bastante!

    r: Isso também é uma grande verdade
    Beijinho*

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  4. José Carlos, li, reli, li de novo e não posso dizer o que me veio à mente. Eu só confessaria ao Freud... E o cara que disse "Penso, logo existo", só poderia estar presente, como espírito...
    Não, não insista, não vou dizer rs!
    Beijos, José Carlos!!!

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  5. José Carlos, penso que entendi mal, acho que vi uma vírgula onde não existia...
    Seja como for, que René Descartes descanse em paz rsrs.
    Mais um beijo!

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  6. Descartes,tomando sol na varanda de bermuda à Agostinho Carrara? rs...

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  7. Olá, José Carlos!

    Tudo bem, ou quase?

    Este seu poema é um "poço", que, ao lê-lo, e se cairmos nele, dificilmente de lá saímos.
    Você "chamou" para personagens dele, Freud, Descartes e Augusto, Agostinho Carrara, que já fui saber quem é.
    Não sei qual deles foi/é o melhor, ou qual deles foi/é o pior, mas que tiveram "style", no caso dos dois primeiros que referi, tiveram. Quanto a Agostinho, bem, homi trapaceiro, malandro carioca, vestindo de forma cafona, conflituoso, taxista, ex-presidiário, enfim tem tudo para "dar certo". Pena ser "oco", não de ideias, claro, mas sua Bebel, sua Maria Isabel, sua mulher, até que gostaria que assim não fosse, acho eu.
    Todo o mundo tem direito a reproduzir-se, a se reproduzir, melhor (em Roma, sê romano) se pretender, mas olha que há pessoas, que não deveriam, em minha opinião (e se os filhos/as saem ao pai ou à mãe)?

    Você os colocou dentro do mesmo "saco", o que demonstra que, psicanalista, filósofo e trapaceiro podem ter muito ou tudo em comum.

    Amei o que você escreveu, sinceramente, tal como o enredo, o ambiente descrito, que você conseguiu transmitir. Você é daquelas pessoas que pega uma erva árida e a transforma na mais bela flor. Parabéns!

    A imagem que encima seu post está "divina", porque é uma belíssima caricatura, que mostra muito bem a realidade. Eu já estive imaginando a "cena" toda, veja bem! Doente, totalmente, "aproveitado", "dissecado", e vice-versa, talvez.

    O humor, a sátira e a sagacidade, saíram à rua!

    Bom domingo, melhor semana.

    Beijos

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  8. ه°·✿
    Passei para uma visitinha.

    Bom domingo!
    Ótima semana!
    Beijinhos
    ♪♬♫° ·.

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  9. Quase que não me lembrava do Agostinho Carrara...
    Um poema que se diverte com os conflitos de ideias.
    Excelente.

    Beijos.

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  10. Aaah pois é! Freud nem o seu próprio ego conseguia enxergar, quanto mais o ego dos outros, mas também com uma luz difusa de abajour, nada melhor que tactear o corpo da paciente, que neste caso deveria sofrer de histeria e estar a precisar de hipnose e consequente massagem. Freud debruçado, quiçá, sobre as pulsões de Eros e Tanatos, num processo terapêutico no qual se fundem todos os aromas, drogas, devaneios, e experimentalismos de ciência louca, praticados num divã púrpura, cor já em si, muito apelativa.
    Trazer Descartes para a solarenga varanda do consultório, só mesmo tu, e com o pormenor do pince-nez!...:-) Totalmente alheado da obscuridade interior, já que o que lhe agrada é o ideal de clareza e evidência, dono de uma razão autónoma que não aceita vergar-se ao peso dos desejos conscientes ou inconscientes.
    Excelente! Dá até para vizualizar as personagens!
    xx

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  11. Olá, José Carlos!

    Como vai? Espero k mto bem (me desculpe pelas abreviaturas, mas eu escrevo tanto, k minha mão dta. e cervical, reclamam todo o tempo).

    Agradeço, de coração, sua visita e comentários em meu blog, tal como o "esforço" de quase escrever português de Portugal. Eu estou tentando, (re)compensar você, fazendo o mesmo, aqui, ou seja, ir ao encontro da sua língua, ai, isso dito, escrito desse jeito pode ATÉ gerar confusão....Tudo de novo, recomeçando: ir ao encontro de seu IDIOMA.

    Penso k é obrigação de blogueiro/a k se preze, ler o texto, o artigo, na íntegra, e depois, opinar, comentar. Caso não, está se enganando a ele/a próprio/a. Concordo, inteiramente, com você, qdo diz k é mto consolador qdo percebemos k leram e entenderam nossos escritos.

    Ah, senhor (já sei: Senhor está no céu) filósofo, como você sabe engendrar palavras e cativa (cativar) estados de espírito...!!!
    Não pretendo k você fique "cativo" daquilo k eu escrevo, não, mas gosto k goste, passo a redundância.
    Tenho consciência de k a minha escrita "cativa", prende, mas não gostaria k confundissem quem escreve, a "atriz", ali, no blog, com a pessoa na vida real, k é igualzinha a qualquer outra, embora a sedução e a imaginação sejam "coisas" k ela consegue facilmente arranjar. É genético, direi.

    Bem, já posso "cair no poço", à-vontade, pke há uns braços e umas mãos fortes, por aí, aliás, nem me deixariam cair... em tentação (bem, já nem sei o k estou escrevendo. "Cansaço" só pode).

    Lhe desejo um suculento dia.

    Beijos com estima e elevada consideração.

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  12. Freud fez escola e essa válvula de escape voce imprimiu de modo a me fazer rir muito porque está muito bom de ler !_ Muito bom!
    Saudade JCarlos ,saudade!
    e abraços pra matar a danada rsrs

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  13. José Carlos , este humor fino que emprega no texto é próprio da sua sagacidade .Parabéns .
    Estou saudosa de suas visitas ao meu espaço .
    Beijos e bom final de semana

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  14. José Carlos , valeu a pena confessar minha saudade . Agradeço seus comentários lá no meu blog . Beijos

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  15. Freud acreditava que utilizar o humor e a ironia no dia-a-dia deixava o cotidiano mais leve e a realidade mais tolerável. E o teu “chiste” nos possibilitou admirar o fino humor da tua postagem, juntando os dois ícones num momento “terapêutico”.
    Mas será que Descartes realmente não estava “nem aí para a dança flamenca” e para o que rolava “no divã de púrpura” e permanecia tão somente “tomando sol na varanda do consultório” ou estaria acometido de uma das seis paixões primitivas: admiração, ódio, amor, tristeza, alegria e desejo?
    Excelente o adendo da “bermuda à Agostinho Carrara”.
    Enfim, meu querido, uma postagem admirável, como todas as que tive o prazer de ler por aqui.
    Que no teu final de semana cheguem sorrisos e estrelas no decorrer das horas.
    Com carinho,
    Helena

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  16. Olá, José Carlos!

    Tudo bem? Por qui, a Primavera abre-nos já os braços, e eu não consigo resistir a uns braços abertos, sinceros e repletos de flores.

    Reli seu texto, que me fez sorrir, com bastante humor, e refletir sobre a essência das coisas.

    Bom final de semana.

    Aquele abraço!

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  17. Eu já estava preocupada e triste com o seu sumiço...
    Beijos!

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  18. Olá, José Carlos!

    Já tinha estranhado você. Agora, entendo sua ausência e "falta", sim porque você já é um amigo da "casa".
    Agradeço, de coração, sua visita, eloquente e brilhante comentário.
    Agora, "purificado", as "coisas" até vão rolar melhor.
    Deixei, lá no blog, umas palavrinhas pra você.

    Boa semana.

    Beijos.

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  19. Passando só pra dizer a você boa tarde, aqui, já é noite. Não há novidades no meu blogue, não. Eu sou um pouquinho diferente das outras pessoas. Apareço quando me apetece, me dá vontade de conversar, é isso.
    Sábado, se comemora o DIA MUNDIAL DA POESIA, e eu irei contribuir para essa celebração, naturalmente.

    Dias bem felizes, José Carlos!

    Aquele abraço!

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  20. Vieste pôr achas nesta minha fogueira de dúvidas à cerca da objetividade da psicanálise e até dos psiquiatras.

    A objetividade é coisa difícil em mente humana ou outra que desconheça.

    Creio que Freud se te lesse seria teu fã número 1.

    De qualquer das formas, os nossos instintos mais básicos comandam-nos e o nosso subconsciente é poço sem fundo.

    Agora tenho de ir ver o significado da tua última palavra.

    O que eu aprendo contigo...

    Beijinhos

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