domingo, 8 de fevereiro de 2015

Beatriz


Tão Preto esfregou os olhos para acostumar-se à escuridão do quarto fechado pelas cortinas de algodão, alongou o corpo e aguardou um pouco para levantar-se. Embora já estivesse amanhecendo, os primeiros raios de sol ainda não tinham dado sinal de vida nos seus aposentos porque o blackout não permitia, mas já havia uma claridade na praça, que permitia o descortinar de todos os movimentos em volta dela. Por isso, Tão correu para a janela para saber o que significava aquele burburinho que o fizera acordar antes da hora.
Esfregou os olhos novamente para ter certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, diga-se de passagem, pois seria capaz de apostar que havia um sujeito empoleirado numa árvore da praça. Fixou o olhar e cravou: aquele era Nelson Rodrigues, cuspido e escarrado.
Nelson, com ar de bonachão, trajava uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista respeitadíssimo. Mas lá estava ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz".
Se em outros tempos já fora um despojado da vida, estava muito mais agora que o seu tempo é o da ausência de tempo.
Da minha janela, eu não tinha dúvidas de que a posição de Nelson no tronco da arvore era mais que perfeita, se poderia dizer que era privilegiada. Privilegiadíssima. Mas, certamente, invisível para alguns, pois nem todos têm essa mediunidade. Ele estava ali para acompanhar, sem trocadilho, aquele desenlace.
Trajava-se de moderno, de antenado e ainda por cima de laptop. Uma grande novidade para quem se habituara a escrever numa máquina Remington durante várias décadas, mas já o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de dizer descontraidamente para os focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, pernas cruzadas, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou mais uma crônica para a sua coluna dominical de Meu personagem da semana, na qual elegia um jogador que tivesse sido o perna-de-pau ou o craque da rodada. Evidentemente, dali não sairia uma crônica, embora pelo visto Beatriz jogasse um bolão.
Ademais, pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, os que o cortejavam na roda de bajuladores, quando Tão Preto descerrou a janela deixando entrar aquela lufada de ar.
A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça. Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para Tão Preto como se o reconhecesse de algum lugar a dizer-lhe é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar em que estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
E prosseguiu lá do alto: “Eu ia passando distraído como quem não queria nada quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu disse: aí tem angu”. “Ou debaixo desse angu tem carne”. E com um ar mais para gozador do que cúmplice acrescentava “Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?” 
De repente, outras janelas se abriram, e Nelson parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse. Por que gritava tanto se a outra estava ao seu lado? Pelo sim ou pelo não, os pássaros voltaram  a se acomodar nos seus galhos indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho no ninho.  
O mais interessante é que aquela que tudo fazia para pôr fim à histeria, parecia dizer à moça inconformada com uma ternura que ela não alcançava: “Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis”, ou quase cantando dizia “embaixo dos caracóis dos seus cabelos" ou "ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”, ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum “olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha quanto balão de cor, que lá no céu, vai sumindo..." Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos big brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, perderia as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação da bigamia. Não tinha escolha? É o que parecia perguntar-se quando fazia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra. E esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama” como ela dizia aos berros para Beatriz.
Foi assim que ficamos sabendo da outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu a traição. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no maior rala e rola.
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas a um armistício, a uma reconciliação, a vítima da traição irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, chifruda? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e ouviu-se o taxista dirigir-se às duas e perguntar-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo decidido, o que levou a plateia ao delírio, aplaudindo a cena com palmas e assobios.
Então, Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando,  olhou para Tão Preto e disse: “é isso... a vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)

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21 comentários:

  1. Claro que tive que ir indagar o que é "angu", e "pagar mico", uma expressão nunca antes ouvida por mim.
    Além disso, fiquei também a pensar, porque será o Fluminense apelidado de "pó de arroz"...:-)
    Um texto, em jeito de crónica, muito bem escrito, diria eu, como homenagem a Nelson Rodrigues, aqui descido à terra, trajando agora moderna indumentária, e munido de um laptop em vez da velhinha Remington, com a qual terá escrito imensas crónicas e peças de teatro. Praticamente escondido no galho de uma árvore, um pouco à imagem do seu gosto de olhar através do buraco da fechadura; algo que os mirones, atrás das cortinas também estavam fazendo.
    Uma cena um pouco inusitada e caricata. A histeria de uma das raparigas, pelo facto de ter descoberto a traição da outra, e a calma imensa da traidora... A grande questão na bigamia, é que geralmente a(o) parceira(o) não sabe de um terceiro elemento, e quando descobre, a coisa pode ficar complicada.
    Eloquentemente cómico, o grito do gaiato dirigido à chifruda! :-) Até porque passado todo o alvoroço, tudo acaba num beijo. E é claro que a plateia só tem que aplaudir, como se de uma peça de teatro se tratasse, ou "A vida como ela é", como diria N. Rodrigues.
    Não haja dúvida de que, às vezes, uma boa discussão pode até ser o recomeço de uma relação mais acesa, porque como se costuma dizer por aqui : "Depois de lavado e enxuto, fica como novo"!
    Excelente! Adoro os teus pormenores que dão um certo sentido de humor à narrativa. Escrever com estilo!
    xx

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  2. Belo texto! A vida como ela é em quase sua totalidade... importante é que façamos e vivamos a nossa vida da melhor maneira possível!... AbraçO

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  3. José Carlos, acredite, é o terceiro dia, a terceira vez que venho aqui, Nas duas primeiras , quando eu estava digitando um comentário, o telefone tocou trazendo complicações para o meu dia. Pois bem, não há como fugir de certas situações, temos que aceitar "a vida como ela é"...
    Mas, saiba, é muito bom ler o que você escreve. Parabéns!
    Amigo, beijo!

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  4. Bom dia José.
    Passando rapidinho para desejar um feliz carnaval, acabo de resolver curtir essa festa que amo muito rsrs. Um forte abraço, depois do carnaval venho com tempo para ler a postagem. Lá vamos nós rsrs.

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  5. Escrita "fina", escrita de quem sabe escrever, passo a redundância, e que muito me agradou.
    A forma, o conteúdo e os aspetos gramaticais estão perfeitos, e nós, sem nos apercebermos "entramos" na história, também, e não queremos sair, parar, porque desejamos saber qual vai ser o final da mesma.
    Expressões encontrei, no texto, k desconhecia, mas fui pesquisar. Agora, estou razoavelmente elucidada. Vocês, brasileiros, têm palavras, expressões tão genuínas, tão... e só vossas.
    A vida é mesmo assim, com todos estes "affaires", que fornecem "material" para os escritores, sim, aqueles que conseguem exprimir aquilo que veem, tão deliciosamente, como é o caso, aqui.

    Dia híper feliz!

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  6. Bom dia José Carlos.
    Como prometido aqui estou para ler o seu texto , que por sinal muito bem escrito, lembrando Nelson Rodrigues, agora na terra como espirito, que não iria perder a oportunidade de escrever algo interessante, como essa cena retratada. A descoberta da traição sempre é bem complicada, pois envolve vários sentimentos, mas muitas vezes acaba assim no perdão. No meu ponto de vista sou a antiga, um casal homem e mulher, também não aceito traição, traiu tem que pagar o seu erro ,radical rsrs.
    A vida como ela é", como diria N. Rodrigues.
    Beijos.

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  7. José Carlos, gostaria de ter um tempo maior para aqui chegar e perscrutar os recantos dessa tua casa tão bem adornada. Tomei como uma permissão para esta “invasão” o fato de ter recebido a tua honrosa visita. Senti-me agraciada com a tua consideração. Também tenho visto comentários teus no blog da nossa querida Laura, um lugar onde também só gosto de freqüentar quando tenho um tempo maior, pois sei que ela se esmera em oferecer sempre o melhor aos seus leitores/amigos. E assim também considero este teu espaço pelo pouco/muito do que pude ler. A tua poesia muito me sensibilizou. Existe nela uma intensidade que em determinados momentos parece até sufocar, permeando dor e prazer. São imagens belíssimas, raras, de uma profundidade única, e outras que nos mostram uma doçura, um lirismo ímpar. Apreciei-as tanto aqui quanto no teu outro blog (desativado?).
    Pude ler também alguns dos textos, onde é apresentada uma realidade muitas vezes doída, cruel, e outras narrativas que nos chegam embaladas num humor incrível.
    Gostei daqui, gostei de ti, e se permitires voltarei outras vezes.
    Por ora, agradeço tua visita tão atenciosa e as palavras ali deixadas, mescladas que foram com a generosidade do teu comentário.
    Quero deixar-te os sorrisos que se formaram no meu coração ao ver-te no meu cantinho, como também as estrelas que me iluminaram o olhar ao ler-te aqui.
    Com carinho e apreço,
    Helena
    (http://helena.blogs.sapo.pt)

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  8. Olá, Jose Carlos, é verdade que você e o Tão Preto gastaram toda reserva de energia no carnaval? Tô sabendo...rsrs
    Para mim, o carnaval nem passou, nada vi, nada ouvi... Aqui é a morada do silêncio. você não imagina.
    Até!
    Beijo!

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  9. Excelente texto!

    r: Sim, é verdade.

    Obrigada pelo comentário, volte quando quiser, será sempre bem-vindo ao meu blog*

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  10. Olá, Zé Carlos
    As minhas primeiras palavras são para agradecer a tua presença na “festa de aniversário” da minha «CASA», agradecimento esse que já deveria ter sido feito há mais tempo. Mas… nem sempre fazemos as coisas quando queremos, mas sim quando podemos.
    Obrigada!
    E obrigada também pelo belíssimo soneto camoniano com que me brindaste.
    Adorei relê-lo, pois há bastante tempo não me passava debaixo dos olhos, apesar de eu ser fã de carteirinha do grande Camões.

    Gostei imenso deste texto. Já tive oportunidade de te dizer que aprecio muito a tua escrita - fluída, clara, explícita, enfim, com os "toques" que a tornam atraente.

    Te desejo um excelente fim de semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  11. E como diria Cazuza: A vida não para! Sensacional, Antonio.Saudades de vir aqui.

    Beijo.

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  12. Bom fim de semana, querido amigo, José Carlos!

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  13. Boa noite José.
    Vim agradecer meu amigo pela sua delicadeza comigo, sempre bom receber o seu carinho com um bom humor invejável.
    Uma linda noite.
    Beijos.

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  14. Quantas saudades de Tão Preto e das suas narrativas pormenorizadas, palpaveis na 1º leitura.

    Um toque de vida comum em alguém incomum, original de forma tão sedutora.

    Que dizer?

    A tua crónica é melhor que qualquer jornal, revista ou folhetim que já tenha lido.

    Obrigado e que venham mais, muitas mais.

    beijinhos

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  15. Olá, José Carlos!

    Agradeço a sua visita e brilhante comentário no meu blogue.
    Eu gosto de toda a gente, portanto, não excluo ninguém, mas dá-me prazer falar com quem sabe, e você está nessa "lista".
    Sei que José Régio para além de escritor, que muito aprecio, foi também um acérrimo crítico da sociedade do seu tempo, mas há atitudes que ele tomou, que não entendo, ou melhor, "não diz a bota c' a perdigota", como se diz por cá. De qualquer modo, o meu apreço pela sua obra, mantém-se.
    A célebre revista Presença, sim, que tanto deu que falar, e Pessoa, embora mais novo uns anos, e com aquele talento polifacetado ajudou à "festa".
    Sim, sei, mas agradeço você ter referido o nome da grande Maria Bethania uma daquelas figuras ímpares da cultura brasileira. Antes de postar, tive o cuidado de pesquisar, e fui encontrar ela, num vídeo, declamando o poema, "Cântico Negro". Maravilhosa, como sempre. O irmão, Caetano, acho ele um "doce", e há uma canção dele de que muito gosto: " não enche" (acho que é assim que se chama). Talento e mais talento.

    Não sou, nem de longe nem de perto, especialista em Literatura Portuguesa, nem em coisa nenhuma, mas gosto bastante de alguns autores do meu país e não só. Por outro lado, não quero que vejam em mim, a mulher que apenas escreve poesia sensual e erótica, embora seja essa temática que mais me agrada e onde me sinto mais à-vontade, sinceramente falando, neste caso, escrevendo. O preconceito, ainda existe sim, porque há quem não comente por ser esse o tema, mas o tempo vai-se encarregando de o diluir.

    Um excelente domingo!
    Beijo.

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  16. José Carlos , a presença do Nelson Rodrigues no seu excelente texto , confirma o que ele pregava : " Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura . "
    Gostei muito . Beijos

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  17. r: Alarga-nos horizontes e vivências. É tão bom!

    Beijinho*

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  18. Cenas urbanas e mais, o incrível Nelson Rodrigues, um texto bem articulado, perfeito.
    Adorei, adorei e adorei!
    Demorei, mas cheguei até aqui, amigo. Mil beijinhos!!!

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  19. Olá José Carlos!
    Como diz o texto "A gente nunca tem certeza de nada na vida". Como nada é imutável, aguardo pelo desenrolar da história.
    Este é o fascínio dos blogs: poder encontrar outras pessoas com histórias interessantes para contar.
    Beijos

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