sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Chiste


Na luz vertical, doutor Sigmund
com aquele velho ar blasé 
que não enxerga o próprio ego 
tateia pelo consultório 
procurando 
na luz difusa do abajur  
impacientemente
o corpo da paciente.


E no bazar do inconsciente, 
os momentos íntimos das coisas 
[só os das coisas]
se confundem com o café expresso 
afogado de pura ciência 
imersos em granulados de ópio 
devaneios 
no denso perfume das rubiáceas, 
enquanto de pince-nez Descartes,
figura de retórica,
tomando sol na varanda
do consultório 
de bermuda à Agostinho Carrara 
não está nem aí para a dança flamenca
teia de ávidos enredos,
que rola no divã de púrpura, 
em que o curvilíneo corpo   
é o objeto atrás do sujeito
inadimplente.

(José Carlos Sant Anna)

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Beatriz


Tão Preto esfregou os olhos para acostumar-se à escuridão do quarto fechado pelas cortinas de algodão, alongou o corpo e aguardou um pouco para levantar-se. Embora já estivesse amanhecendo, os primeiros raios de sol ainda não tinham dado sinal de vida nos seus aposentos porque o blackout não permitia, mas já havia uma claridade na praça, que permitia o descortinar de todos os movimentos em volta dela. Por isso, Tão correu para a janela para saber o que significava aquele burburinho que o fizera acordar antes da hora.
Esfregou os olhos novamente para ter certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, diga-se de passagem, pois seria capaz de apostar que havia um sujeito empoleirado numa árvore da praça. Fixou o olhar e cravou: aquele era Nelson Rodrigues, cuspido e escarrado.
Nelson, com ar de bonachão, trajava uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista respeitadíssimo. Mas lá estava ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz".
Se em outros tempos já fora um despojado da vida, estava muito mais agora que o seu tempo é o da ausência de tempo.
Da minha janela, eu não tinha dúvidas de que a posição de Nelson no tronco da arvore era mais que perfeita, se poderia dizer que era privilegiada. Privilegiadíssima. Mas, certamente, invisível para alguns, pois nem todos têm essa mediunidade. Ele estava ali para acompanhar, sem trocadilho, aquele desenlace.
Trajava-se de moderno, de antenado e ainda por cima de laptop. Uma grande novidade para quem se habituara a escrever numa máquina Remington durante várias décadas, mas já o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de dizer descontraidamente para os focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, pernas cruzadas, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou mais uma crônica para a sua coluna dominical de Meu personagem da semana, na qual elegia um jogador que tivesse sido o perna-de-pau ou o craque da rodada. Evidentemente, dali não sairia uma crônica, embora pelo visto Beatriz jogasse um bolão.
Ademais, pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, os que o cortejavam na roda de bajuladores, quando Tão Preto descerrou a janela deixando entrar aquela lufada de ar.
A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça. Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para Tão Preto como se o reconhecesse de algum lugar a dizer-lhe é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar em que estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
E prosseguiu lá do alto: “Eu ia passando distraído como quem não queria nada quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu disse: aí tem angu”. “Ou debaixo desse angu tem carne”. E com um ar mais para gozador do que cúmplice acrescentava “Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?” 
De repente, outras janelas se abriram, e Nelson parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse. Por que gritava tanto se a outra estava ao seu lado? Pelo sim ou pelo não, os pássaros voltaram  a se acomodar nos seus galhos indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho no ninho.  
O mais interessante é que aquela que tudo fazia para pôr fim à histeria, parecia dizer à moça inconformada com uma ternura que ela não alcançava: “Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis”, ou quase cantando dizia “embaixo dos caracóis dos seus cabelos" ou "ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”, ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum “olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha quanto balão de cor, que lá no céu, vai sumindo..." Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos big brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, perderia as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação da bigamia. Não tinha escolha? É o que parecia perguntar-se quando fazia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra. E esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama” como ela dizia aos berros para Beatriz.
Foi assim que ficamos sabendo da outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu a traição. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no maior rala e rola.
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas a um armistício, a uma reconciliação, a vítima da traição irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, chifruda? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e ouviu-se o taxista dirigir-se às duas e perguntar-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo decidido, o que levou a plateia ao delírio, aplaudindo a cena com palmas e assobios.
Então, Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando,  olhou para Tão Preto e disse: “é isso... a vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)

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