sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O batismo




Aquarela, 1914. August Macke (1887-1914)

Todos estavam mortos e nenhuma mancha de sangue. O pintor é que sustinha o pincel ainda molhado na mão direita, enquanto a esquerda, com um lenço, enxugava o suor que escorria pelo rosto, descia pelo pescoço e molhava o colarinho de sua camisa.

A pintura ainda repousava sobre o cavalete aguardando a tinta secar completamente e já se ouvia um burburinho no ateliê.

Parecendo alheio a tudo, notava-se um brilho diferente no olhar do artista e, sem despregar os olhos da sua obra, ele ia guardando os pincéis na sua maleta. Aliás, uma obra que todos ali presentes já se curvavam pelo realismo exacerbado, se perguntando, sem ouvir respostas, de onde vinha tanta inspiração para um autodidata e que alcançava, era notório, um sucesso em escala nacional, notícia em vários veículos de comunicação.

O ateliê recebia dezenas de visitas por dia para vê-lo manejando as tintas com tanta leveza; depois, embaralhando-as sobre a tela, dava forma e vida às suas criações como a recém acabada, para a alegria de todos que o rodeavam naquele momento e, certamente, depois, na próxima exposição, quando aquela tela despertaria a cobiça dos que gostam de arte.

Todos já o reconheciam como um grande artista. Não havia preocupação de nenhuma natureza em sua vida por conta do seu sucesso, era o que se imaginava.

Por outro lado, ele nunca se preocupou com o fato de estar constantemente cercado de pessoas estranhas, sem saber a origem de cada uma delas, a fazer-lhe perguntas, às vezes sem pé nem cabeça, sobre as suas criações.

Aquela obra, antes de ser concluída, havia provocado dúvidas e ilações em todos os que o acompanharam no processo de criação no ateliê esta manhã. Agora a obra já não lhe pertencia. Ao admirá-la, cada um que achasse o que quisesse, ou o que perdesse, dizia para si mesmo.

Do outro lado da cidade, num bairro de classe média, numa casa confortável, enquanto acabava de colocar os objetos pessoais numa bolsa de viagem, Maria abriu uma gaveta, apanhou uma luva, calçando-a, e guardou, antes que a polícia viesse para a investigação, a arma do crime num fundo falso do armário. Apenas ela o conhecia.

Ela não deveria ter escondido a arma do crime, sabia, mas havia o desejo inconsciente de proteger o patrão, embora não tivesse a certeza de que ele tivesse cometido os crimes.

Por impulso, ela estava fazendo o que não deveria ter sido feito. Bem o sabia. Agora já não se importava com isso, embora tivesse muito medo de que lhe imputassem alguma culpa. O que ela queria mesmo era ajudar o patrão, por não acreditar que ele fosse o autor dos hediondos crimes praticados contra sua família.

Esperava pela Polícia que tinha sido acionada por ela mesma, descrevendo ao Delegado a cena do crime tal como a tinha encontrado ao abrir a porta e entrar para fazer o seu trabalho na casa. Era uma diarista e trabalhava para o pintor e sua família três vezes por semana, fazia quase vinte anos.

Ela estranhara não tê-lo encontrado em casa, na cadeira de balanço, lendo o seu romance, enquanto esperava pela sua vinda, como ele o fizera religiosamente nos últimos vinte anos. Afinal, desde que chegara à casa da família dele para fazer aquele trabalho, era a primeira vez que não o encontrara ali sentado. O pintor só saía para o seu ateliê depois que ela entrava e começava a fazer as suas tarefas. E isto nunca acontecia antes das nove da manhã. Por precaução, não disse isso, pelo telefone, ao Delegado, quando lhe contou como encontrara a casa.

Quando os investigadores chegaram, Maria os recebeu na sala de visitas e lhes mostrou os corpos dos pais dele mortos, ainda no quarto, e o do irmão, na sala, respondendo em seguida a uma série de perguntas e tirando as dúvidas dos investigadores.

O interrogatório, que se arrastava, estava deixando-a angustiada, pois não queria ser arrolada como uma das testemunhas, muito menos como uma suspeita. Mas, sem titubear, seguiu em frente, dizendo o que sabia. Os investigadores sabiam que ela não era uma criminosa, mas precisavam do seu testemunho, de ouvi-la sobre cada um deles.

Depois de fotografar os corpos, os investigadores vasculharam a casa toda em busca da arma do crime e não a acharam, embora soubessem que o criminoso ou os criminosos usaram uma arma branca.

Voltaram a fazer perguntas a Maria sobre a arma do crime e ouviram-na dizer que não mexera em nada. Ao perceber algo estranho, ligara imediatamente para a delegacia e repetiu o que sabia, omitindo o que fizera com a faca. Agora era tarde para recuar.

Cheios de dúvidas, mas como, de qualquer modo, já não havia muita coisa a fazer ali, na casa, os investigadores pediram a Maria que os aguardasse, sem tocar em nada para não violar a cena do crime, enquanto eles iriam conversar com o pintor no ateliê. E saíram.

Encontraram-no com os visitantes que permaneciam ali, no ateliê, admirando aquela expressão de arte, que parecia real aos olhos de todos. E como se nada soubesse da manhã sangrenta em sua casa, o pintor brindava alegremente o novo quadro do seu acervo, ainda sem batismo, no cavalete.  
(José Carlos Sant Anna)

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8 comentários:

  1. Este teu texto, deixou-me de rastos...:-) Onde devo pegar e comentar?
    Quando li a primeira parte, pensei que o texto se encaminhasse para a questão da criação autodidata, para a discussão se a arte será feita mais de inspiração ou transpiração, enfim, esse tipo de questões..... Depois surge um desenvolvimento, feito de frases curtas e bem pontuadas, às vezes com o uso de uma certa repetição, o que acaba por conferir-lhes um traço de drama e suspense, bem característico dos policiais.
    O que me fascina,(embora confesse que teria de ler o texto muitas mais vezes, e mesmo assim talvez nunca chegasse a uma conclusão definitiva), é sempre o factor incerteza nos teus textos; nós que encontremos o sentido, porque, por aqui, nada de textos lineares, com um princípio, meio e fim no sentido clássico do termo, mas um texto sempre aberto.
    Este será decerto, um baptismo de sangue, e ocorreu-me a velha a discussão; será a arte sempre uma expressão elevada do bem e da beleza, ou poderá ter na sua génese, os mais primitivos e cruéis instintos?... O que é ser artista?... Veio-me também à ideia o pintor Caravaggio,que teria sido, segundo rezam as crónicas, um homem conflituoso, cruel e irascível no trato, e cuja pintura, no entanto é de uma beleza invulgar.
    Nem sempre a Beleza anda de braço dado com o Bem, e como sabemos a estética do horror é bastante apelativa aos sentidos do observador.
    Depois, a personagem Maria, o caso exemplar de uma empregada demasiadamente fiel ao se patrão, como que de forma instintiva. Porquê colocar arma num fundo falso que só ela conhecia?...Porque se acredita sempre que certas pessoas serão incapazes de cometer crimes, e por isso mesmo, acabam por ter o universo próximo a conjurar em seu favor?...
    Um texto excelente que me deixou a pensar.
    Ah, desculpa, escrevi demais! :-)
    Abraço, Zé!
    xx

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  2. E um texto de reflexão!!
    O pintor está terminando a sua obra que tanto se orgulhava.
    Mas também existia um crime! De seus pais e seu irmão.Que a empregada tentou esconder a arma, esconder na verdade o culpado! Então será que ele se inspirou em sua obra através de um ato impensado?
    Porque ele não estava na cadeira de balanço lendo seu romance como fez durante vários anos!
    sinceramente é um texto que me deixou com dúvidas! São várias fatos! Eu penso que ele se orgulha de suas obras, mas se inspira através da desgraça! E um doente, uma pessoa que o sentido da vida era somente a sua pintura! Tanto que ele não se incomodava com nada! Pra ele não existia ninguém! Somente a sua o que ele pintava.
    Desculpa se não soube interpretar! Como falei no começo e um belo texto mas de reflexão!
    Beijinhos.

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  3. Consertando; Pra ele não existia ninquem somente a sua pintura!

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  4. [ na falta de objeto, o jeito é ser oblíquo.....]


    b ei jo

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  5. Devo confessar que este artista não me é, de todo, estranho.

    Os artistas, os génios têm sempre uma pontinha de algo que foge aos padrões estabelecidos como 'normais'

    Mas, não é essa uma constituinte de todos nós?

    Uma narração pormenorizada onde o contraste da beleza adivinhada da arte, na forma de quadro, contrasta com a crueldade e horror da morte, do crime.

    Sabes escrever, descrever e passar emoções, José.

    Beijinhos

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  6. José Carlos , sua escrita sempre nos surpreende . Muito bom este seu texto . Gostei . Beijos

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  7. Que triste, o pintor era um psicopata e ninguém sabia de sua doença?
    Você escreve muito bem, menino!
    José Carlos, grande abraço!!!

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  8. Bom dia!
    Caí aqui mais ou menos de paraquedas :) e fiquei presa à leitura deste intrigante texto.
    Li-o quase de um fôlego, com crescente interesse, e acho-o excelente.
    Hei-de vir com mais tempo para apreciar este espaço que atraiu a minha atenção. Como me fiz sua seguidora... não devo perder-lhe o rumo.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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