quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Prelúdio

Brooke Shaden

17:52
escrevo o incerto 
e o olho se propaga
pelo corpo    esguio   instintivo    matreiro
por amores incisivos   enleados
irradiantes lumes    viajados
as tuas vagens    as tuas encostas
tarde única para beber-te.


17:59
de puro encantamento
a tarde insuflando-se tingida de outono
faz-me inventar 
um templo para a sagração do amor
no qual te abrigo     selvagem
à beira de um crepúsculo viscoso.


18:26
em desalinho, desejo
incandescente na carne das tuas coxas
e a sede  cúmplice  luminosa   úmida 
cresce em grandes piras 
labaredas por  pescoços   ombros    seios   glúteos
alagando    a proa da embarcação.


20:39
Já não havia 
a luz dos pirilampos nos campos
o vinho aberto exalava
um aroma de frutas silvestres
e navegados      silenciados nas veias 
dos corpos   imóveis   sob a coberta da lua
ouvia-se apenas a respiração. 

(José Carlos Sant Anna)

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Novo metaplágio para a poesia de Adília Lopes


com uma fome antiga
a mesma dos meus vinte anos
escrevo à moda de tão preto 
pensando 
na poesia de adília lopes
enquanto dou uma mordida
num croissant de queijo
deixado em minhas mãos por você,
margarida,
olho a tua minissaia,
econômica em matéria de pano,
e, sem rasurar a paisagem,
devolvo o croissant
disfarçadamente
à cesta de pães
e pisco os olhos para Maria
que voraz me escreve
um epigrama

(José Carlos Sant Anna)

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TÃO PRETO – SEM EXCESSO DE LUZ

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O batismo




Aquarela, 1914. August Macke (1887-1914)

Todos estavam mortos e nenhuma mancha de sangue. O pintor é que sustinha o pincel ainda molhado na mão direita, enquanto a esquerda, com um lenço, enxugava o suor que escorria pelo rosto, descia pelo pescoço e molhava o colarinho de sua camisa.

A pintura ainda repousava sobre o cavalete aguardando a tinta secar completamente e já se ouvia um burburinho no ateliê.

Parecendo alheio a tudo, notava-se um brilho diferente no olhar do artista e, sem despregar os olhos da sua obra, ele ia guardando os pincéis na sua maleta. Aliás, uma obra que todos ali presentes já se curvavam pelo realismo exacerbado, se perguntando, sem ouvir respostas, de onde vinha tanta inspiração para um autodidata e que alcançava, era notório, um sucesso em escala nacional, notícia em vários veículos de comunicação.

O ateliê recebia dezenas de visitas por dia para vê-lo manejando as tintas com tanta leveza; depois, embaralhando-as sobre a tela, dava forma e vida às suas criações como a recém acabada, para a alegria de todos que o rodeavam naquele momento e, certamente, depois, na próxima exposição, quando aquela tela despertaria a cobiça dos que gostam de arte.

Todos já o reconheciam como um grande artista. Não havia preocupação de nenhuma natureza em sua vida por conta do seu sucesso, era o que se imaginava.

Por outro lado, ele nunca se preocupou com o fato de estar constantemente cercado de pessoas estranhas, sem saber a origem de cada uma delas, a fazer-lhe perguntas, às vezes sem pé nem cabeça, sobre as suas criações.

Aquela obra, antes de ser concluída, havia provocado dúvidas e ilações em todos os que o acompanharam no processo de criação no ateliê esta manhã. Agora a obra já não lhe pertencia. Ao admirá-la, cada um que achasse o que quisesse, ou o que perdesse, dizia para si mesmo.

Do outro lado da cidade, num bairro de classe média, numa casa confortável, enquanto acabava de colocar os objetos pessoais numa bolsa de viagem, Maria abriu uma gaveta, apanhou uma luva, calçando-a, e guardou, antes que a polícia viesse para a investigação, a arma do crime num fundo falso do armário. Apenas ela o conhecia.

Ela não deveria ter escondido a arma do crime, sabia, mas havia o desejo inconsciente de proteger o patrão, embora não tivesse a certeza de que ele tivesse cometido os crimes.

Por impulso, ela estava fazendo o que não deveria ter sido feito. Bem o sabia. Agora já não se importava com isso, embora tivesse muito medo de que lhe imputassem alguma culpa. O que ela queria mesmo era ajudar o patrão, por não acreditar que ele fosse o autor dos hediondos crimes praticados contra sua família.

Esperava pela Polícia que tinha sido acionada por ela mesma, descrevendo ao Delegado a cena do crime tal como a tinha encontrado ao abrir a porta e entrar para fazer o seu trabalho na casa. Era uma diarista e trabalhava para o pintor e sua família três vezes por semana, fazia quase vinte anos.

Ela estranhara não tê-lo encontrado em casa, na cadeira de balanço, lendo o seu romance, enquanto esperava pela sua vinda, como ele o fizera religiosamente nos últimos vinte anos. Afinal, desde que chegara à casa da família dele para fazer aquele trabalho, era a primeira vez que não o encontrara ali sentado. O pintor só saía para o seu ateliê depois que ela entrava e começava a fazer as suas tarefas. E isto nunca acontecia antes das nove da manhã. Por precaução, não disse isso, pelo telefone, ao Delegado, quando lhe contou como encontrara a casa.

Quando os investigadores chegaram, Maria os recebeu na sala de visitas e lhes mostrou os corpos dos pais dele mortos, ainda no quarto, e o do irmão, na sala, respondendo em seguida a uma série de perguntas e tirando as dúvidas dos investigadores.

O interrogatório, que se arrastava, estava deixando-a angustiada, pois não queria ser arrolada como uma das testemunhas, muito menos como uma suspeita. Mas, sem titubear, seguiu em frente, dizendo o que sabia. Os investigadores sabiam que ela não era uma criminosa, mas precisavam do seu testemunho, de ouvi-la sobre cada um deles.

Depois de fotografar os corpos, os investigadores vasculharam a casa toda em busca da arma do crime e não a acharam, embora soubessem que o criminoso ou os criminosos usaram uma arma branca.

Voltaram a fazer perguntas a Maria sobre a arma do crime e ouviram-na dizer que não mexera em nada. Ao perceber algo estranho, ligara imediatamente para a delegacia e repetiu o que sabia, omitindo o que fizera com a faca. Agora era tarde para recuar.

Cheios de dúvidas, mas como, de qualquer modo, já não havia muita coisa a fazer ali, na casa, os investigadores pediram a Maria que os aguardasse, sem tocar em nada para não violar a cena do crime, enquanto eles iriam conversar com o pintor no ateliê. E saíram.

Encontraram-no com os visitantes que permaneciam ali, no ateliê, admirando aquela expressão de arte, que parecia real aos olhos de todos. E como se nada soubesse da manhã sangrenta em sua casa, o pintor brindava alegremente o novo quadro do seu acervo, ainda sem batismo, no cavalete.  
(José Carlos Sant Anna)

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