sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Postais III


Outro dia a voz de Otelo galgou os fios do meu telefone como se fosse o canto da cigarra atravessando a tarde e jogou a sua alma de encontro à fraga. Para uma alma que anda sem rumo, qualquer estrada pode ser estreita. Percebi aquele vinho ácido. Otelo já estava ancorado no meu telefone e não me poupava os ouvidos falando do seu criador sem parcimônia. Dizia-me coisas inacreditáveis que deixariam ruborizado o próprio Shakespeare. Uma fúria sem gala, que ia minando dentro de mim um túnel. Deixei-o falar a tarde inteira, profanando as flores, destruindo o carro mortuário, como se as exéquias estivessem ocorrendo naquele exato instante. Como já me habituara a essas tempestades, fechei os olhos e me abandonei àquela ladainha como a uma liturgia de um culto religioso, por exemplo. Quantas vezes eu contemplei na minha infância o abate de um porco? Ainda ouço os seus gritos de desespero quando a insônia invade as minhas madrugadas, parece gritar todo o horizonte dentro do meu peito. Morria em pleno dia, sem escolher a hora, sem poder inventar uma verdade para a vida, ainda que a vida não passasse de um cálculo aritmético para a sua pena no bolso do abatedor. 

(José Carlos Sant Anna)



Visite o meu outro blog 

Visite o site da Quarteto Editora