sábado, 22 de novembro de 2014

Postais I





I.
No duro, gravatas servem tão somente para enforcar os que não sabem aproveitar a vida e outras miudezas. Por isso, deitado aos teus pés é o que faço, sem alardes, aproveito a vida, na penumbra, entre gritos e sussurros. É uma delícia lambê-los, trôpego, inaudito, e depois mergulhar no seu impudico sexo. Já há muito sou refém dessa fruta madura. E os meus dentes não se cansam de moer sem cessar a tua carne nesse divino ócio: sonhos palavras músculos. E, na modulação dos dias, sob os lençóis que abrigam as nossas fantasias, acreditamos que viveremos para sempre nas gotas resvaladas porque sabemos que o tempo não passa quando se morre. E antes que o sol interrompa este interlúdio, vem para cima de novo, e vamos fazer outra sessão de cinema ousadamente pós-moderna  nesta sala mal iluminada. 

(José Carlos Sant Anna)

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9 comentários:

  1. [ e assim, em cada novo script
    como a vela de um barco sente o vento
    conheço tudo à força de não ser]

    beijo

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  2. José Carlos!!! Você tem ares de intelectual, não pensei que fosse tão afoito rs.
    Brincadeira à parte, a pequena crônica está perfeita...Pausa para a gravata, não é?...
    Beijos!!!

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  3. Um belo postal, José Carlos. Sobre um amor intenso feito de fantasia e de carne, como convém.
    "Sabemos que o tempo não passa quando se morre", portanto toca a morrer para que o tempo não se acabe! ;-))

    Agora desculpa o meu abuso. Exagerado, porque feito de uma generalização, e sabemos como as generalizações falseiam a realidade.
    Aqui vai o meu Postal:
    Sempre achei a gravata um acessório totalmente dispensável, e só quem julga que veste bem usa gravata, o que não tem nada a ver, e geralmente quem não se sabe vestir também não se saberá despir, ou se souber, poderá não saber o que fazer a seguir...
    Nem consigo imaginar um engravatado a lamber os pés de alguém, e se ficam trôpegos isso poderá dever-se à ingestão de wisky de má qualidade. Engravatados são geralmente púdicos ou pior ainda, falsos púdicos, daqueles que não mergulham no sexo de suas mulheres mas poderão chegar tarde a casa depois de um mergulho num qualquer bordel, enquanto a sua mulher seca de tanto esperar.
    O sítio onde melhor se come é quase sempre em casa.

    Que me desculpem todos os engravatados!
    xx

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  4. Que linda sinfonia!
    Eu me encolhi diante do poeta que se encorpa quando fala de uma estética íntima e nos deixa rastos ,Enquanto leio tento me aproximar mais e mais para sentir a mesma harmonia e recompor essas trilhas por onde passou .
    Então, canto re-canto e recanto _ rondando o texto ... rs
    Gravatas? para quê?
    _ _ basta jogá-la ao chão da 'sala mal iluminada'
    A poesia pede mais_ estamos só no primeiro 'postal'.
    Um abraço e um lindo domingo JCarlos

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  5. Maneiro, a gravata caminha para a extinção.

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  6. Aproveitar a vida: eis o segredo mais bem guardado no caminho para a felicidade.

    E, por entre lençóis, confunde-se o tempo e é-se, simplesmente.

    Intensa, a película a rever.

    Beijinhos

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  7. Quer dizer que dispensa-se o drops de anis? A Rita Lee não iria gostar...[risos]
    Amigo, que amorzinho gostoso é esse, hein?
    Bem, mas que não venham os Reis Magos com aquela baita estrela a iluminar, ou que venham, mas não já.
    José Carlos, beijos!

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  8. Vi, li, ameiiii... Te seguindo. Me seguem também!... Bijos

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  9. Quanto postal por aqui.

    Estou atrasada nas minhas leituras preferidas.
    Tenho de pedir mil e uma desculpas.

    Vamos então ler a 'correspondência'....

    Voltei e quis recomeçar porque não sei se os de cima estarão relacionados.

    Por aqui, vive-se, e de que forma.

    De maneira intensa é-se escravo e senhor de prazeres plenos, em conjugação com a cumplicidade do Sol e de lençóis que resvalam.

    Como não resvalar nessa ausência de gravatas sem préstimo?

    Um postal que já deve ter chegado ao seu destino.

    Voemos para o II.

    Até já!

    Beijoca de Portugal

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