sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Postais II




II.
Leve espessura, fugaz, complacente. A música se dilui, o que me leva a escutar lençóis e fronhas em suaves ondulações, hálitos de brancura, enquanto as mãos e o olhar se tecem. Livre, abre-se ao meu corpo o teu palácio, as tuas tranças negras me envolvem como um sopro mais alto, águas que não se cansam, aromas de pedra, perfumes de cântaros resvalam tangíveis. Me abandono em espirais brancas, voluptuosas, em todas as partes da morada do teu corpo, entranhas mudas impõem-me um flagelo pelos teus ermos, onde por fim vou saber existir nas comportas abertas onde o meu ser inteiro mede a si mesmo sem que a chuva passe nos rumores da língua. E ardendo como uma lava em manchas de óleo me afundo. Então, parte alguma de mim se intumesce incendiada pela tua corola, boca impetuosa.

(José Carlos Sant Anna)

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sábado, 22 de novembro de 2014

Postais I





I.
No duro, gravatas servem tão somente para enforcar os que não sabem aproveitar a vida e outras miudezas. Por isso, deitado aos teus pés é o que faço, sem alardes, aproveito a vida, na penumbra, entre gritos e sussurros. É uma delícia lambê-los, trôpego, inaudito, e depois mergulhar no seu impudico sexo. Já há muito sou refém dessa fruta madura. E os meus dentes não se cansam de moer sem cessar a tua carne nesse divino ócio: sonhos palavras músculos. E, na modulação dos dias, sob os lençóis que abrigam as nossas fantasias, acreditamos que viveremos para sempre nas gotas resvaladas porque sabemos que o tempo não passa quando se morre. E antes que o sol interrompa este interlúdio, vem para cima de novo, e vamos fazer outra sessão de cinema ousadamente pós-moderna  nesta sala mal iluminada. 

(José Carlos Sant Anna)

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Utopias



I
É inútil fingir      se acaso
as amêndoas nas minhas mãos fossem
sílabas catadas no chão do teu corpo
não estaria eu agora
limpando 
os meus óculos com a bainha da camisa

III
Tão súbito verso 
 e o uivo agudo 
do clarim 
para iluminar 
o breu. 

IV
Que venham
as vinhas
os devaneios

ao sabê-lo 
um veio,
não o parto 
ao meio 


(José Carlos Sant Anna)
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