segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Do meu caderno de exercício

Imagem da internet



Aquelas palavras calaram a música da vizinha do quarto andar. Tento revivê-la agora que as estrelas dormem, mas já não lembro a melodia. E me pergunto, então, por que me dispersei? Que estranha potência havia naquelas palavras que me afastaram do feixe de luz que parecia estabelecer um elo entre um prédio e outro? Do lado de cá já começava a inventar um novo modo de ser, já efabulava em silêncio, como um corpo procurando por outro, uma história simplória em que a agregação deles se costurava em rios translúcidos, percorrendo as sombras dos vales, sem impor limites às mãos que dançavam ao ritmo da melodia, aflorando sustenidos e bemóis nas membranas do tempo. Um doce calor já se espraiava pelo meu corpo apagando os antigos ruídos. A cada agudo que entrava pela janela alguma coisa em mim se partia, trazendo consigo um leve sorriso apenas pressentido. Renascia na voz repleta de tudo, na face encoberta pela cortina, a chama que, em si mesma, recriava um lúdico instante. Sabia que era um desejo de aventura que já transpunha meu corpo. Uma cópula de sonhos não vividos, mas imaginados porque sabia que ela me olhava em lúbricas tensões subvertendo o seu canto. Havia um código secreto na extensão da voz que ainda não alcançara. Será mesmo que havia? Eu sabia que sim, tinha certeza de que sim, sempre achava que conhecia a essência da alma feminina, como se fosse um self service, mas o meu outro dizia que não, dizia que aquele canto abrigava tão somente o tédio irreal, absoluto, da moça do quarto andar, fazendo das suas cortinas uma burca para esconder o rosto porque sabia que o seu vizinho seguia sempre o rumo oposto do que ele expressava. Aproveitando que o meu coração estava desguarnecido, queria romper, enfrentar aquela situação propondo aos gritos entre uma janela e outra partilhar os destinos ou despencar no mesmo abismo, como se tal coisa tivesse sentido. Uma única vida, dizia. Quando há dentro da gente um vazio, uma lacuna, a gente se mexe, se retrai, mergulha, se afunda, agarra o cipó como um náufrago, se inventa. Até um recomeço. É o que imagino nas gotas de sangue que borbulham nas minhas veias que ameaçam explodir. Foi Nina quem me disse com a língua de fora, esvaída mas insatisfeita, que mentimos para sermos ainda que nada sejamos depois que um corpo sai de dentro do outro. Já sinto falta desse gostinho de aurora, já não posso deixar que mais um dia vá, que mais um dia venha, pois só vivemos um dia de cada vez. As cortinas se fecharam abruptamente, já não florescem palavras nos lábios do aprendiz de feiticeiro que já engendrava um beijo, liames, um frágil abrigo para os olhos. Agora são névoas, e as ruínas da dor de um lado e do outro sem eu que descubra o significado das palavras que calaram aquela voz. Além desse gostinho de amar que ficou na boca, volátil, ainda palpita o coração, mas nenhuma metáfora substitui os cacos corrompendo o vazio dos dois lados. Não fosse tudo, já seria tão pouco...

(José Carlos Sant Anna)

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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Três canções para uma manhã chuvosa










I

Para este amor
que me parecia tão leve
não me faltariam palavras,
mas agora, 
ao abrir a caixa
do correio eletrônico,
vejo as contas chegando,
você partindo
e deixando
uma dor sem anestesia. 

II

Agora 
quando você passa
ouço os seus passos e o balançar 
de suas ancas a dizer-me: 
sou mi nei ra,
mi nei ra mi nei ra mi nei ra!  

III

Inventas passos no cascalho
lavrando horas

e o pássaro
que tens na alma
deixa escapar da tua veia

o canto 
que se esvai
na delicadeza do rio

derramando o dobre 
de uma ânsia pressentida.

(José Carlos Sant Anna)

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