quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Adusto

Goya




Entre outras coisas, 
me abrigo 
com olhos de espanto
do náufrago que reinventa 
as horas

e dos enigmas que se ocultam
na poesia dos ponteiros
dos relógios

Entre outras coisas,
a poesia se aninha 
em minha cama
e finca as unhas no escuro
do meu leito

para me tirar da letargia
em que me encontro

Entre outras coisas, 
mordaz, 
a poesia busca o rastro 
da minha história,
a incerteza do meu destino,

e um testemunho sem sal
é o que ela me dá
dizendo-me que aderno,
mas não afundo:

Entre outras coisas,
meu tempo 
é de fome absoluta. 


(José Carlos Sant Anna)


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12 comentários:

  1. e se meu coração for um quindim?


    (francis / chico)


    beijo

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  2. A poesia "finca as unhas" no silêncio dos minutos e horas que passam, impelindo-nos a acordar em direcção à saciedade de todas as nossas fomes e sedes. Para que em vez de tão absolutas se nos apresentem mais relativas. A sua claridade permite que nos mantenhamos à tona. Para que cravemos os "cornos" no destino.
    Belíssimo poema, José Carlos! Gostei muito.
    xx

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  3. A poesia é-te íntima de tal forma que nunca dela te despes.

    É tempo de arrancar essa letargia e dançar na poesia até saciar a fome.

    beijinhos

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  4. José Carlos, adorei o poema. Bom é saber que você não se afunda , mas, o mal é que não posso tirá-lo dessa fome absoluta rs.
    Beijo!!!

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  5. Ardente, muito ardente Jcarlos
    E é com os poetas que sacio minha fome _ 'entre outras coisas ...
    Transcrevo mais um pedacinho que acabei de ler e lembra o seu:
    _ "Ilusão e realidade,
    heroísmo e covardia,
    sensualismo e castidade,
    prosa pedestre e poesia"
    Dai-me forças !! para conseguir um bom mergulho... rs
    Achei lindo o poema _ vou levar comigo.
    um abraço

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  6. Boa noite José Carlos.
    A poesia nos embriaga na magia da escrita.
    Uma linda primavera, que possa logo saciar a sua fome.
    Um forte abraço.

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  7. Um quadro de Goya e a poesia que se aninha em sua cama. Isso foi o suficiente para que suas linhas me tocassem a alma.
    Abraços, José Carlos!

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  8. E por essa feliz descoberta, vou segui-lo com imensa alegria...

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  9. José Carlos , dizer que tudo que escreve é de profundidade absoluta , não deixa de ser redundante . Adorei . Então , faço minhas as palavras de Octávio Paz : " A leitura é uma tradução que transforma o poema do poeta em poema do leitor . " Obrigada . Beijos

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  10. Extraordinário poema, versatilidade de sempre! Saudades...
    Beijos,

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