quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Adusto

Goya




Entre outras coisas, 
me abrigo 
com olhos de espanto
do náufrago que reinventa 
as horas

e dos enigmas que se ocultam
na poesia dos ponteiros
dos relógios

Entre outras coisas,
a poesia se aninha 
em minha cama
e finca as unhas no escuro
do meu leito

para me tirar da letargia
em que me encontro

Entre outras coisas, 
mordaz, 
a poesia busca o rastro 
da minha história,
a incerteza do meu destino,

e um testemunho sem sal
é o que ela me dá
dizendo-me que aderno,
mas não afundo:

Entre outras coisas,
meu tempo 
é de fome absoluta. 


(José Carlos Sant Anna)


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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A soberana

Imagem do Google





Além de uma língua ferina, ela era muito marrenta, diz Tão Preto, quando lhe pergunto sobre um retrato que conserva na parede do seu quarto em que uma senhora gorda segura a mão de um guri vestido de índio, cocar na cabeça e um pião apoiado sobre as pernas. 
Era um índio pra lá de esquisito. Nele sobressaía uma cinta de penas em volta da sua cintura que, de tão redonda, parecia uma barrica, prestes a rolar ladeira abaixo. Sem que a família soubesse, aquele menino carregava dentro de si uma cultura de verminoses, acrescenta Tão. 
Não se sabe como sobreviveu a tantos vermes, diria o médico pouco tempo depois. 
Na fotografia,  continua Tão Preto, ele aparece sentado sobre um banquinho de madeira, e ela, cara amarrada, olhando-o de través por cima dos óculos, pronta a apertar-lhe as carnes do braço com um beliscão. Para merecê-lo, bastaria resmungar qualquer coisa, ele o sabia, pois não havia hora para aquela senhora mostrar a acidez que a corroía.
Estava sempre a ralhar por "qualquer me dá aquela palha", mas não o incomodava, era o que dizia. Pelo contrário, afirmava aos primos que a adorava, mas nunca deixou de pensar em uma brincadeirinha à vista de todos para vê-la bufando de raiva. Era o que matutava agora no almoço.
Assim, brincalhão e destemido, Tão Preto pensou numa artimanha para quebrar um pouco a monotonia do almoço dominical para comemorar o aniversário do filho mais velho da senhora da fotografia, sua avó, que congraçava, a todos, filhos e netos, em volta de uma mesa, a cada aniversário de um dos membros da família. 
Já sentado à mesa, Tão não teve pressa em preparar o seu prato, porque, conhecendo a sua gula, sabia que se começasse a almoçar perderia o instante fatal.  E o almoço estaria irremediavelmente perdido.
Todos já estavam à mesa. A família reunida, alguns amigos, estes eram poucos, o aniversariante, o filho mais velho da matriarca, a vovó Augusta, como todos a chamavam, ocupava uma das cabeceiras. Na outra sentaria ela, na imponência dos seus quase cem quilos de amor e rancor. 
A verdade é que ela era Augusta só no nome porque era um terror para filhos e netos. 
E Tão Preto, ali plantado na cadeira, com a nuca erguida e os olhos piscando de ansiedade, esperando a hora de a onça beber água. 
Impacientes, cada um a chamava de um modo:
– Mamãe, venha logo, o que a senhora ainda está fazendo na cozinha? 
– O almoço está esfriando. Quase duas horas da tarde, mamãe, as crianças estão com fome.
– Já vou – respondia, lá de dentro da cozinha, a matrona, numa voz abafada, parecendo que mastigava às escondidas alguma coisa.
Demorava um pouco e a chamavam novamente, agora uma das netas, a primogênita do aniversariante:
– Minha avó, eu estou com fome – dizia Jafa Maria Stela da Paixão Matias de Souza, a preferida. É o que os outros netos diziam. Ela gostava de ouvir o seu nome, pronunciado por inteiro; quando o ouvia, sentia um imenso júbilo, achando-se herdeira de uma nobreza perdida junto com o príncipe regente. Nenhum outro neto tinha nome tão extenso.
E logo não demorava ouvir-se um uníssono, ecoando na sala, chamando-a insistentemente para ocupar o seu lugar à mesa, parecia ensaiado.
Essa ladainha acontecia todos os anos. Sentavam e ficavam a esperar, e a vovó fazendo o seu charme, valorizando a sua presença ali, em volta da mesa, enquanto debicava na cozinha, era o que se dizia, porque todos a temiam, a boca pequena.
Finalmente, ela chegou, olhou em volta e viu a cadeira da cabeceira esperando por ela. Um dos amigos da casa, disse-lhe:
– D. Augusta, a cabeceira é  sua. Não se preocupe que essa conta já está paga.
    Pensou Tão Preto, caraca, seu Antoninho, vai quebrar minha guia, vai acabar me jogando para o escanteio, esse intrometido, se continuar puxando o saco da vovó desta maneira. Por favor, dá um tempo, seo Antoninho, quase lhe diz baixinho, afinal ele estava sentado na cadeira ao seu lado, quase o belisca imitando a sua avó.
    Para a sorte da sua aleivosia, a avó Augusta não deu atenção ao que ele disse. Puxou a cadeira para sentar-se, esparramando nela a sua gordura. 
Bigode, o aniversariante e filho querido, apanhou um prato e perguntou-lhe o que ela queria, desejando servi-la para liberar o almoço, dando o toque de "avançar", como ele gostava de brincar todos os anos com os adultos, porque os miúdos estavam liberados, mas ninguém se atreveria a encher o seu prato antes que ela tomasse o seu lugar à mesa. 
Pronto para o bote, Tão Preto se antecipou à resposta da matriarca, dizendo pausadamente e com uma graça incomum para a ocasião:
– Pra vovó, tio – que tal água e palito!?
E todos riram ruidosamente à mesa, deixando a velha espumando de raiva, por ser alvo de tamanha chacota com a aprovação deles.
E, antes que o riso fosse abafado pelos talheres, vermelha como um pimentão, pronta para esganar o neto gaiato, com o dedo em riste, não conteve o grito:
- Vai dar água e palito à sua mãe, seu filho da puuuta.
E um novo estrondo de riso explodiu à mesa.

(José Carlos Sant Anna)
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