domingo, 24 de agosto de 2014

Não o aceita no seu bosque

Lautrec

Tão Preto, depois de algum tempo pensativo, virou a cabeça para dizer-me alguma coisa enquanto procurava entender aquela engrenagem nua sob o seu nariz. Ele sempre foi um homem prático, aquele que nunca deixava falar o seu coração e, para ludibriar o seu interlocutor, sempre encontrava um jeito de mostrar os dentes alvos na expectativa de um elogio, pois sabia que aquela seria a hora de inventar uma verdade sobre a pasta de dentes, por exemplo, e assim, sair escorregando pela ribanceira, sem arranhar o traseiro. Fazia isto de modo natural como se estivesse lutando pelo pão de cada dia. Tão cresceu sem discutir se aquela margem o acompanhava ou sem olhar o tamanho do rio que se alongava como um vento em fúria. Sempre que cortava o baralho, lá estava o ás a sua espreita. Quando lhe perguntam entreouvidos onde aprendeu a ciciar, confessa humildemente que foi nos restaurantes, onde só os rústicos fazem barulho. Diz que começou a frequentá-los ainda cedo, logo depois que saiu da adolescência, ao começar a trabalhar com aquele exportador de sisal, que o requisitava para as noitadas, depois do jantar, nos bordéis da cidade. Vinha do interior para acompanhar a liberação da mercadoria para embarque no porto de Salvador e aproveitava para arrancar suas dores do fundo de si mesmo, afogando-as em prostíbulos refinados. Estes, só ele os conhecia, Tão Preto não tinha cacife para tanto. Não lhes pertenciam, mas se tornou possuidor deles. Em seguida, mostra mais uma vez que aprendeu a ciciar verdadeiramente ao contar que o chefe gostava de carregar consigo alguns carimbos com os quais legitimava as mulheres, explicando-lhe que não se enganaria ao voltar, elas estariam marcadas como gado. Um dia, mais carente que o habitual, bebeu um pouco mais e aquela dama, que o seduzira, deixando-o entre a melancolia e o amor, o esperou com a inscrição não o aceita no seu bosque, tatuada no seu corpo dos pés a cabeça, enquanto escorria o sangue do sentimento e da carne na pele do exportador de sisal.

(José Carlos Sant Anna)

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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O barqueiro




"Importa saber? Invento o meu caminho, este é o meu lema". Às margens dessa filosofia modelada em botequim, Tão Preto olha pela janela e pensa numa cerveja gelada, mas, ao conferir o relógio, se dá conta que ainda são três horas e, num gesto de perdão a si mesmo, diz aos seus botões: “É cedo para fundir copos e mulheres num terno abraço, deixemos a tarde cair sem muito esforço, pouco a pouco, incendiando-se completamente até as ave-marias. Sem tugir ou mugir, ela se levantará amanhã no mesmo horário, refeita.”
Sente uma lufada de vento que invade a sala, uma reunião de vozes no corredor do escritório e, como um rio longo, solta uma baforada de fumaça. Depois fica olhando-a perder-se no ar.
“Não te choro, oh tarde, mas posso oferecer-te, sem nenhuma solenidade, além da minha saudade inútil, um copo de cerveja. Só o nosso sangue é que nos salva", Tão diz para si mesmo. 
E depois, inspirado, quebra de vez a mudez em que a tarde o deixara mergulhado: “Hoje, com ou sem aliteração, não deixarei que nenhum morcego sugue meu sangue. Esquecerei as rugas e, antes que qualquer borra se agarre ao meu corpo, erguerei o cálice em saudação à noite... Evoé, Baco!”
E antes de perder o resto da pureza que ainda guardava dentro de si, Tão Preto pergunta outra vez à tarde se não gostaria de acompanhá-lo, se dizendo o barqueiro que se faz ao mar. 

(José Carlos Sant Anna)

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Do lado esquerdo


                                                 Para Margarida Farinha
Esse grito
dentro da medula
quem o plantou?
Encurralado
sem sol
e sem chuva
nutre raízes
no fundo do corpo
no âmago
espelho do homem
liberto da sombra
desfaçatez da vida
águas pluviais
que matam a minha sede
e me banham.

(José Carlos Sant Anna)

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