quinta-feira, 10 de julho de 2014

Obstinação

Brooke Shaden



Apenas
uma menção
ao teu corpo delicado
às margens virgens
incesto delicado
no teu ventre tão exato

Enleado
no teu lume
meu novelo viajado
encosta nos grandes lábios
cobrindo com o meu 
o teu corpo 
fascinado

Crepitando na zona
dos quadris
as tábuas da música
erosão sagrada
onde mãos desatadas
se perdem pelas avenidas 
desaguadas
da leoa incendiada

(José Carlos Sant Anna)

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segunda-feira, 7 de julho de 2014

A copa, o copo e a bola – II






Ainda ontem, antes de passar de costas para o mar, porque a ressaca estava assustadora, perguntei a Tão Preto quem eu sou. Este não me respondeu, dizendo-me apenas que anoitecia dentro e fora dele. Depois me olhou bem dentro dos olhos e me disse que o jogo seria difícil, tão difícil quanto incerto o resultado, só não estava previsto na sua cartilha de vidente que o ídolo do escrete nacional se machucaria tão seriamente a ponto de afastá-lo do restante da competição. Como eu estava me lixando para suas preocupações em torno de uma bola, disse-lhe, soletrando cada sílaba, que o inverno estava me deixando com febre, com os lábios secos e as minhas pálpebras clamavam por um poema sem nenhuma gota de melancolia. Dei um tempo para mim mesmo e me perguntei, em seguida, como seria contar a saga de um bêbado, embrulhando-se na bandeira brasileira, com a língua igualmente enrolada de espanto depois de ter visto a sua seleção eliminada da copa. Como isto não aconteceu, deixei que os bêbados perambulassem pelas ruas e pela minha imaginação, enquanto eu aguardava a próxima refrega, abastecendo também o meu refrigerador porque sou de carne e osso.
(José Carlos Sant Anna)

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quarta-feira, 2 de julho de 2014

A copa, o copo e a bola



Ainda não descobri
o meu chão diz-me Tão Preto ,
procurando um pretexto 
para dialogar
sobre qualquer coisa 
em tempos de alienação 
coletiva 
reinante nas arenas,
fan fests, mídias e outras praças
espalhadas pelo país.

E, por óbvio, termina na copa
erguendo um copo
e um grito "vamos, Brasil!"

Ignoro o discurso 
porque meus olhos e ouvidos 
se recusam 
a saudar o verde e o amarelo; 
os olhos e ouvidos 
não recusam, porém,
um arco maior de cores 
para entregar o seu coração
e reconhecem na bola 
que rola 
pela grama 
a ternura de um abraço 
irmanando a todos 
num único eixo. 

A bola redonda como a terra, 
no centro,  
sustentando a todos,
é um pássaro cheio de vento. 

(José Carlos Sant Anna) 

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