sexta-feira, 27 de junho de 2014

Fragmento para o quinto dia do inverno


 Foto: Praça Marquês de Pombal ( Portugal) - arquivo pessoal

Se eu pudesse também me dissolveria sem nenhuma aflição como a chuva que escorre pelos vidros das janelas. O quinto, desdobrando-o como a um tapete e acariciando-o como a uma tarde morna. Filtrá-lo antes que a luz vertical me cegue, é o que procuro fazer. Arquejo, mas o corpo se levanta um pouco. Partilhar é um verbo que não se exaure nas lonjuras do tempo. A sós. Contemplo absorto palavras que, fluidas e uníssonas,  em movimento insuspeito, desatam nós. E resguardo-me para que este húmus do inverno não prospere chicoteando com um único golpe a pauta dessa melodia nas cordas do vento, enquanto as andorinhas se protegem adejando em meu espírito a canção da leveza que o tempo em seu infindável curso ameaça tirar-me. Solenemente deixo que as trovoadas irrompam nesse quinto dia de inverno, mas não procuro outro exílio se não o do teu colo. 
(José Carlos Sant Anna)  

meu outro blog 
www.souhospededoasturiasblogspot.com.br 

Visite o site da Quarteto Editora 
www.editoraquarteto.com.br


4 comentários:

  1. [às vezes eu estudo as estações
    para descobrir minha fronteira
    me perdendo em desertos...]


    beijo

    ResponderExcluir
  2. José Carlos , passo diariamente por aqui em busca de novidade . Quando me deparo com um belo texto como este , a alegria se faz presente . Obrigada . Beijos

    ResponderExcluir
  3. Boa tarde Jose Carlos.
    Finalmente meu amigo resolveu da cor de si, rsrs, estava ficando preocupada,mas não tive coragem de incomodar buscando noticias,mas não posso negar estava sentindo falta de da boas risadas com a sua animada presença, não estou cobrando visita rsrs,mas feliz por saber que esta tudo bem. Uma bela imagem, acho que vou da um pulinho em Portugal,mas a minha filha quer conhecer a Alemanha primeiro.
    Um feliz més de julho.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  4. Caro José Carlos,

    Nem reconheço o Marquês de Pombal apesar de me ser familiar (quase).
    Uma fotografia onde o olhar parece escorrer pelo vidro em húmidas perceções.

    Uma partilha íntima onde se sente a presença do escritor, figura central deste inverno ainda no berço.
    Um quase voltar no tempo onde um colo era cura de todas as enfermidades.

    Tens esta capacidade de comover ao utilizares as palavras em arranjo floral nesta enorme jarra que são as emoções.

    Beijo


    ResponderExcluir