sexta-feira, 27 de junho de 2014

Fragmento para o quinto dia do inverno


 Foto: Praça Marquês de Pombal ( Portugal) - arquivo pessoal

Se eu pudesse também me dissolveria sem nenhuma aflição como a chuva que escorre pelos vidros das janelas. O quinto, desdobrando-o como a um tapete e acariciando-o como a uma tarde morna. Filtrá-lo antes que a luz vertical me cegue, é o que procuro fazer. Arquejo, mas o corpo se levanta um pouco. Partilhar é um verbo que não se exaure nas lonjuras do tempo. A sós. Contemplo absorto palavras que, fluidas e uníssonas,  em movimento insuspeito, desatam nós. E resguardo-me para que este húmus do inverno não prospere chicoteando com um único golpe a pauta dessa melodia nas cordas do vento, enquanto as andorinhas se protegem adejando em meu espírito a canção da leveza que o tempo em seu infindável curso ameaça tirar-me. Solenemente deixo que as trovoadas irrompam nesse quinto dia de inverno, mas não procuro outro exílio se não o do teu colo. 
(José Carlos Sant Anna)  

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