domingo, 20 de abril de 2014

Polifonias II




I.
de inefáveis motes
corações abstratos
e febres loucas


II.
Dizes-me confusa
digo-lhe cafuzo

É o que sou
da cabeça aos pés
até a glande
não esconde
minha origem
afrodescendente

Dizes-me confusa
digo-lhe cafuzo

É o que sou
dos pelos à pele
um cafuzo penitente

branco
só os dentes.

III
quando
menos se espera,
furtivo,
o mote arranha
a porta,
redime-se da recusa
e suga os cupins.

IV
nada,
à parte o todo,

e, sem toldar-me
a parte do todo,

toldo-me em febre
pelo corpo todo.

(José Carlos Sant Anna)

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domingo, 13 de abril de 2014

Polifonia



I

O raiar do dia
é um vestido
de sombras
aguardando
o despir-se
da lua

II

soturno, enfurnado,
o camaleão invisível
é um vapor barato
roendo
um céu insensível.

III

No vale do outono
meu silêncio
tem sede de bailarinas
sepulcros
barbitúricos
e anti-histamínicos. 

IV

Porque é assim... inteira e única,
que atravessas o mar vestida de Pessoa
na alegria de ser eterna,
estrangulando o meu coração,
que tenta em vão
desatar esse nó

É o que faço
nessa ponte de meditação
entre
o pensar e o não-pensar
contemplando
outros silêncios do mundo.

(José Carlos Sant Anna)

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