sexta-feira, 14 de março de 2014

O apagamento de Olívia

Asilo na ótica de Van Goh (1853-1890)


Pode ter sido a última vez.
Olívia perde o fio da meada depois que o telefone toca, fechando-se, por horas seguidas, dentro de si mesma. Ninguém consegue trazê-la de volta à realidade, não se sabendo o que disse o interlocutor do outro lado da linha ao ouvir a voz dela.
         Sem apetite, embora com muita fome, o coração sem arranjos e o trem descarrilado. Ninguém é capaz de reconduzi-lo aos trilhos para que ela volte a si mesma, saindo do mutismo em que mergulhou, prendendo-a no quarto ou em falas descontínuas pelos corredores, ilhando-a, depois do diálogo guardado nos seus escaninhos desarrumados.
         “Se eu pudesse, ah! Se eu pudesse!” – diz para si mesmo aquele bom ouvinte ali sentado, ao lado dela, no banco do jardim florido daquela casa de repouso...
Sei que ele faria qualquer coisa para ajudá-la, percebia pelo seu olhar.
Ela o tomou para si, como já o fizera com outros, sem que ele o esperasse e agora é ele que faz das tripas coração e diz vamos viver ao tentar quebrar todas as amarras dizendo-lhe que a cadeira de mágoas foi para a oficina de quebrados e, quem sabe,  se ela não arejar suas ideias, talvez não volte nunca mais.  Mesmo quebrada a cadeira ainda faz sentido.
         Ela não o ouve e diz-lhe que voltou a desenhar meninos jogando bola como os via na praça abandonada. Diz-lhe também que depois caminhava pela enseada a tomar sorvete de mãos dadas com as dores e as alegrias como se lhes fossem íntimas.  E vai-lhe dizendo coisas sem parar.
         Enquanto caminhava, diz-lhe, cheia de mesuras, desenhando flores no ar ou tricotando uma joia para uma festa, coisa que ela ainda não sabe se, um dia, acontecerá, tudo o que o coração manda, sem remorsos. Diz-lhe roçando as pontas dos seus dedos que não sentia o mundo a girar como agora. 
        Nas palavras entrecortadas não faltavam labirintos para que ambos não sentissem a passagem do tempo... 
         Inundava-o com histórias, repassando os delírios da infância, recompondo um passado que não se esvaía, ainda que ela desenhasse e apagasse imediatamente enquanto os reinventava para fazer perdurar o tempo. 
         Diz-lhe como uma bebida em chama que estavam no jardim da infância e fala da merendeira como se falasse do amor ao morder a maçã que levava para a escola, da fita que amarrava ao cabelo, tudo um aprendizado naquela fase da adolescência, sempre se soube uma Cinderela, ainda que a sua mãe não o dissesse.
         Diz-lhe que adora subir a escada, que tudo é uma fluidez se multiplicando, que parece ouvir os seus pensamentos, que não se afaste tanto porque o mundo fica desigual sem a sua presença, diz-lhe que não corra mesmo que as suas miudezas não o agradem e que ele invente também algumas para aquele momento. 
         Chove encantamento no jeito de explicar as coisas da mãe, no jeito de dizer que queria uma casa só dela, ainda que não tivesse jabuticabeiras, ainda que a chuva inundasse a rua e os seus sonhos... E acrescentava que a chuva limpava a sujeira que a vida trouxesse para dentro de cada um.
         Diz-lhe que não se incomoda pensar absurdos, incita-lhe o braço todo arrepiado, impele-o a roçar a sua pele, aqueles pelos eriçados como se ela estivesse  sentindo frio...  Mas o sentia. Era um frio interior, lá dentro de si, que não sabia explicar.
         Depois ela lhe diz que é cedo ao perceber o impulso dele... Diz-lhe novamente que gosta da fluidez dos seus pensamentos...
Ainda tinha tanta coisa para dizer-lhe sem dar-se conta do tempo escoando por entre os seus dedos e suas histórias, quando o médico plantonista entra com o telefone nas mãos, atendendo-o, no jardim da Casa aonde Olívia repousa sob cuidados médicos, mas ainda sem calendário...
         É aquele um gesto instintivo do médico, por isso ele não percebe que Olívia emudece de repente, levanta-se e caminha em direção ao quarto e nele se fecha novamente.
    
(José Carlos Sant Anna)

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13 comentários:

  1. Abra-te verso!
    És um exímio escritor.

    Beijo, caríssimo.

    (Tive vontade de por Olívia em meu colo)

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  2. José Carlos , chove encantamento no que escreve . Suas delicadas metáforas me fizeram sentir ao lado da querida Olívia ouvindo suas histórias . Muito me emocionei com tanta sensibilidade . Obrigada . Beijos

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  3. Vida - coisa que o tempo remenda, depois rasga.

    |Guimarães Rosa - Estas Estórias|


    [me emocionei tanto!]

    um beij0 poeta querido.

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  4. José Carlos , volto para lhe dizer que sentei-me ao lado da Olívia e senti dela e com ela a vida passar . Beijos

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  5. Chove encantamento no teu jeito de explicar as coisas, poeta admirado... E se chove, a gente viceja!

    Beijos!

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  6. Vida que se vive dentro, bem dentro.

    Um arrepio me trouxe a Olivia.

    Todos nós a compreendemos porque talvez também more em nós.

    Um texto real? Imaginário?
    Não importa.

    As palavras, o estremecimento que ficou...sim!

    Beijo

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  7. OI JOSÉ CARLOS!
    E, NA FLUIDEZ DE TUAS IDÉIAS, TRANSFORMADAS EM CONTO, MUITO ENCANTAMENTO...
    LINDO DEMAIS.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  8. Um texto tão bom como esse, merece um grande elogio!

    Beijo.

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  9. Labirintos ,como na ótica de Van Goh
    e confesso que vou roubar dela o gosto pela 'fluidez dos seus pensamentos'...
    saudade de ti,
    fica o abraço

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  10. Bom dia José.
    Lendo a sua historia,lembrei da minha amada irmã que eu tomo conta,que aos 17 anos se tragou em se mesma,mesmo assim não perdeu a essência do amor,ela consegue amar s ser muito amada,eu a amo muito.
    Lendo a sua sensibilidade ao relatar essa historia,me deu uma profunda saudade dela,sera que ela está recebendo o colo e a atenção da minha família para ouvi-la? muito lindo o seu texto.
    Estava ausente devido a está internada,mas agora já consigo passar a noite no virtual matando a saudade,pelo menos isso rsrs, estou em um tédio que nem com palavras poderia explicar ,louca para voltar as minhas atividades,a sorte é que eu tenho paciência.Sei que em breve estarei de volta a vida rsrs.
    Uma linda semana.
    Beijos.

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  11. Boa noite Amigo.
    Apagas-te como a Olivia,que não dar um sinal de vida rsrs.
    Espero que estejas tudo bem.
    Um ótimo final de semana.
    Beijos.

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  12. Bonito texto! Olívia, suas histórias e sua mudez... um flash de vida e um telefone fechando o ciclo e abrindo silêncios. Lindo!

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