terça-feira, 18 de março de 2014

Das prateleiras aos escaninhos da memória

TAVARES, Ildásio. Odes Brasileiras
Rio de Janeiro: Imago / Fundação Biblioteca Nacional, 1998.



Fuçando uma grande livraria da cidade – uma dessas espalhadas pelo país, abarrotada dos chamados best-sellers – me deparei, numa das prateleiras, com um solitário exemplar das Odes Brasileiras, do poeta Ildásio Tavares, publicação da Imago, de 1998.
Para os que não sabem Ildásio já não está entre nós, e porque havia nele tanta irreverência é que seguramente não virou uma estrela quando se foi dessa para uma vida melhor; talvez, por isso, a irreverência, não logrou também entrar na Academia de Letras da Bahia. Mas, longe de mim, a intenção de polemizar, sobretudo agora, que é irremediavelmente tarde, com a sua não entrada naquele sodalício.
Também para os que não sabem, é por isso que me refiro à Academia, talvez ele tenha sido um dos nossos maiores poetas; dirão alguns, há controvérsias; por mim, pouco importa que o digam. É o que eu acho e ponto final. Mesmo porque digo um dos nossos maiores, e o faço estadualmente falando, como queria Bandeira, mas acho que ele já nasceu um poeta federal. Melhor dizendo, um poeta brasileiro.
 Ildásio era um poeta de mão cheia, e a sua lírica, invejável; ele está morto, mas sua poesia não; basta um mergulho nas suas Odes, por exemplo; transitou pela crônica, narrativas primorosas nas quais trata o cotidiano com leveza; pela dramaturgia, dentre outras peças, com o libreto Lídia de Oxum e, ainda, dois romances. 
Na poesia, dentre outros, publicou Tapete do Tempo, Poemas Seletos, Livro de Salmos, 9 sonetos da Inconfidência, Sonetos Portugueses, o que mais nos interessa neste momento: refiro-me à sua poesia.   
Assim, pois, eu falava das Odes Brasileiras, obra encontrada em uma das prateleiras de uma grande livraria da cidade. Coloquei-a sob o meu sovaco, tal qual faz o francês com o pão, na volta do trabalho, à tarde, e perambulei pela livraria, escolhendo outros livros. 
Uma vez no caixa, resolvi deixá-las de lado, as Odes, levando os outros, folheados e definitivamente escolhidos, pois estava certo de que o próprio Ildásio me soprava nos ouvidos que ele já tinha me dado um exemplar das Odes, e autografado. 
Paguei os outros e levei as Odes de volta à prateleira, deixando-a, cuidadosamente escondida, para voltar no dia seguinte, caso não encontrasse o meu exemplar que, àquela altura, dava como favas contadas na minha biblioteca. 
Confesso que este ardil eu o aprendi com a minha filha, versada em deixar livro camuflado nas prateleiras da livraria para voltar depois de sopesar a importância dele para o seu entretenimento ou para o seu labor, dependendo da escolha na ocasião.
Pois bem, passei o final de semana relendo-as, pois as encontrei ávidas pelo meu olhar. E não imaginam como foi um reencontro auspicioso ouvir a dicção de Ildásio, a lembrar-me de algumas estórias picantes, outras edificantes – quando o conheci, por exemplo, foi educado – talvez –, mas seguramente impaciente e seco, por não saber a extensão da minha amizade com Kátia, sua mulher, na época, quando ela recomendou que ele me levasse para a Universidade Federal da Bahia. Com o indicador me mostrou a porta da reitoria, estávamos bem próximos ao Palácio da Reitoria. Para a minha surpresa, no dia seguinte, ele postava um bilhete numa tira de papel, dizendo textualmente: “amigo zé carlos, caso ainda queira ensinar na universidade federal da bahia, me procure na próxima terça-feira no departamento (sic) – outras dramáticas e algumas trágicas. 
Não se entrava na universidade nem ontem, nem hoje dessa maneira, por indicação, mas eu o procurei depois e ficamos, inicialmente, amigos, pela reciprocidade da amizade e carinho que tínhamos, eu e Kátia, que ainda perdura até hoje, é bom que se diga. Pouco depois, trabalhamos juntos na Universidade, pois nela ingressei por outro caminho, o do concurso público, e em tantos outros projetos.
Para os que não o conhecem se fuçarem as prateleiras das livrarias da sua cidade e encontrarem um exemplar das Odes Brasileiras, não irão se arrepender do investimento. Vejamos, por exemplo, "a qualidade do poeta – como diz Assis Brasil –, [...] a sua arte poética e as diferentes maneiras de dizer a verdade” em um dos trechos de Ode Mineral:
"Djalma Correia tem pássaros nas mãos – / Asas que ruflam e rufam nos atabaques / em noites grávidas de som. Vejo / agora, sem ver, suas mãos aladas / e ouço dentro de mim no silêncio / paracatum, paracatum, pratum, pracaratum / a melodia dos seus ritmos alucinantes [...]" singela homenagem a um dos maiores percussionistas que a Bahia já teve. 
E prossegue na Ode Mineral "[...] Todo o som do universo dorme aí concentrado;/ Potencial de uma melopeia indescritível / que ameaça sempre arrasar o silêncio; / Lá está tudo junto em repouso no palco. / Queria que vissem como vejo agora, vendo tudo pelo poder da poesia [...]."
Ainda volto a  a falar das Odes Brasileiras

(José Carlos Sant Anna)  

Fac-símile da dedicatória

 


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sexta-feira, 14 de março de 2014

O apagamento de Olívia

Asilo na ótica de Van Goh (1853-1890)


Pode ter sido a última vez.
Olívia perde o fio da meada depois que o telefone toca, fechando-se, por horas seguidas, dentro de si mesma. Ninguém consegue trazê-la de volta à realidade, não se sabendo o que disse o interlocutor do outro lado da linha ao ouvir a voz dela.
         Sem apetite, embora com muita fome, o coração sem arranjos e o trem descarrilado. Ninguém é capaz de reconduzi-lo aos trilhos para que ela volte a si mesma, saindo do mutismo em que mergulhou, prendendo-a no quarto ou em falas descontínuas pelos corredores, ilhando-a, depois do diálogo guardado nos seus escaninhos desarrumados.
         “Se eu pudesse, ah! Se eu pudesse!” – diz para si mesmo aquele bom ouvinte ali sentado, ao lado dela, no banco do jardim florido daquela casa de repouso...
Sei que ele faria qualquer coisa para ajudá-la, percebia pelo seu olhar.
Ela o tomou para si, como já o fizera com outros, sem que ele o esperasse e agora é ele que faz das tripas coração e diz vamos viver ao tentar quebrar todas as amarras dizendo-lhe que a cadeira de mágoas foi para a oficina de quebrados e, quem sabe,  se ela não arejar suas ideias, talvez não volte nunca mais.  Mesmo quebrada a cadeira ainda faz sentido.
         Ela não o ouve e diz-lhe que voltou a desenhar meninos jogando bola como os via na praça abandonada. Diz-lhe também que depois caminhava pela enseada a tomar sorvete de mãos dadas com as dores e as alegrias como se lhes fossem íntimas.  E vai-lhe dizendo coisas sem parar.
         Enquanto caminhava, diz-lhe, cheia de mesuras, desenhando flores no ar ou tricotando uma joia para uma festa, coisa que ela ainda não sabe se, um dia, acontecerá, tudo o que o coração manda, sem remorsos. Diz-lhe roçando as pontas dos seus dedos que não sentia o mundo a girar como agora. 
        Nas palavras entrecortadas não faltavam labirintos para que ambos não sentissem a passagem do tempo... 
         Inundava-o com histórias, repassando os delírios da infância, recompondo um passado que não se esvaía, ainda que ela desenhasse e apagasse imediatamente enquanto os reinventava para fazer perdurar o tempo. 
         Diz-lhe como uma bebida em chama que estavam no jardim da infância e fala da merendeira como se falasse do amor ao morder a maçã que levava para a escola, da fita que amarrava ao cabelo, tudo um aprendizado naquela fase da adolescência, sempre se soube uma Cinderela, ainda que a sua mãe não o dissesse.
         Diz-lhe que adora subir a escada, que tudo é uma fluidez se multiplicando, que parece ouvir os seus pensamentos, que não se afaste tanto porque o mundo fica desigual sem a sua presença, diz-lhe que não corra mesmo que as suas miudezas não o agradem e que ele invente também algumas para aquele momento. 
         Chove encantamento no jeito de explicar as coisas da mãe, no jeito de dizer que queria uma casa só dela, ainda que não tivesse jabuticabeiras, ainda que a chuva inundasse a rua e os seus sonhos... E acrescentava que a chuva limpava a sujeira que a vida trouxesse para dentro de cada um.
         Diz-lhe que não se incomoda pensar absurdos, incita-lhe o braço todo arrepiado, impele-o a roçar a sua pele, aqueles pelos eriçados como se ela estivesse  sentindo frio...  Mas o sentia. Era um frio interior, lá dentro de si, que não sabia explicar.
         Depois ela lhe diz que é cedo ao perceber o impulso dele... Diz-lhe novamente que gosta da fluidez dos seus pensamentos...
Ainda tinha tanta coisa para dizer-lhe sem dar-se conta do tempo escoando por entre os seus dedos e suas histórias, quando o médico plantonista entra com o telefone nas mãos, atendendo-o, no jardim da Casa aonde Olívia repousa sob cuidados médicos, mas ainda sem calendário...
         É aquele um gesto instintivo do médico, por isso ele não percebe que Olívia emudece de repente, levanta-se e caminha em direção ao quarto e nele se fecha novamente.
    
(José Carlos Sant Anna)

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Arrimo



cala a boca menino,
esse é o mote, e outro, o grito.

e pelas mãos do outono
antes que um sol de alfarrábios
penetre os umbrais e as soleiras
dos sítios desta casa,

com os vestígios do poema
já derruídos,
convoco para o nosso convívio
uma encarnada e imemorial
tarde de bordados rugosos

que, por meandros
inexplicáveis,
calou as vozes das fantasias
ofegantes do nosso paraíso.

para dizer-lhe que
essa interdição é uma hecatombe,
e que o hiato já procura
o seu alforje,
                          recolhendo-se.


(José Carlos Sant Anna)


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