quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Da tua boca


     Brooke Shaden



Antes que pinte outro verão
devolva-me o pássaro e a gaiola

desta fugidia noite de águas espessas
em que me apertas contra o peito

e não me perguntes o que eu não sei;
agora inventemos alguns sussurros

para o enlevo que em si mesmo se abre
mais perto do teu céu para tocá-lo com as mãos

enquanto as tuas águas escorrem
entre as rosas, o rochedo e o mar.

Com os lábios abertos e as conchas 
fitando a carícia do teu corpo 

contra o meu, e o mar em ondas 
de brancura vindo, indo e vindo,

me abriga bem dentro do teu corpo 
aonde eu me perca, afogando-me

inextinguível nas contrações de tua boca. 

(José Carlos Sant Anna) 

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Soneto imperfeito






O palimpsesto, o sorriso de Mona Lisa,
os bemóis de todas as vivências,
as caras cinzentas num salão de modas,
o fígado encrespado sem os alcoóis

e as fotografias velhas no álbum de família.
Com olhos de espanto gosto de galopá-los
sem ânsias, sem fúrias, sem tristezas.
São os velhos ossos do meu corpo físico,

são um antigo vento que me parte ao meio.
Me sangra, me despedaça, me encoraja;
sem alarde fincam a unha no meu rosto,

minam dentro de mim a rosa-dos-ventos
da partitura anódina e das monções
ao ouvir o jazz atravessando suas paredes. 

(José Carlos Sant Anna)

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