quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ode à falta de um sol real

Imagem da Web



Como se eu tivesse um alaúde, mas digo que é outra coisa,
talvez rubro ou incolor esse eclipse na festa.
Pular da cama pode safar Madalena, mas o melhor 
é que ela não o faça, seria como apanhar um metrô,
sem conhecer as linhas, que serve no dia a dia
a executivos da classe média.
E aquela piscadela, esqueceu? O que houve, Mada?
Não tenho talento para esse desespero
nas ruas vazias sem o meu amolador de facas.
E Rimbaud não se assustaria ao ver-me versejando,
meiga vertigem perdida, nas míseras cadernetas
do armazém da esquina? Aquele filho da mãe
dono da mercearia sempre acrescentava um pouco mais
nas contas da semana, na hora de fechá-las.
Mas somos precoces na hora do choro da saudade
e perdemos tudo na aposta. Me espera, eu não demoro,
ainda glosamos juntos como num poema bem resolvido?
Ou então durma agora; o desamparo é uma lástima 
ociosa, e o teu médico, cubano, não fala bem o português.
E agora, já sem a luz do sol, confesso que este é 
o meu fogo de poeta, por isso digo todas essas coisas, 
enquanto a fumaça do cigarro sobe e perde-se
pelas frestas das telhas da cumeeira da casa. 

(José Carlos Sant Anna)


Visite o blog da Quarteto Editora

Meu outro blog



16 comentários:

  1. Diálogo interior onde a realidade se mistura com pensares de desejos e sonhos vestidos da crueza da casa.

    beijos

    ResponderExcluir
  2. na falta de um sol real você tece uma noite toda de filigrana no poema!

    A mim só resta manifestar o encanto por tuas letras!

    beijo, poeta admirado!

    ResponderExcluir
  3. O fogo de poeta que escreve incandescendo... Saio sempre prenhe de perguntas...
    Beijos,

    ResponderExcluir
  4. Bom dia José Carlos.
    Poema intrigante,mais com pouco da realidade,a vida de muitos não é fácil,mais sempre a como se adaptar a situação e seguir em frente . Na falta de um sol real, temos que aprender a admirar a escuridão .Vim lhe desejar um lindo més de fevereiro,e que todos os seus sonhos sejam realizados,com a proteção e orientação de Deus.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. José Carlos , seu texto brilha como o fogo do poeta . Lindo ! Beijos e alegre final de semana

    ResponderExcluir
  6. Querido amigo José Carlos, aí está um monólogo, onde uma pessoa inteligente fala com outra, também inteligente, ou seja, você falando consigo mesmo. Só você entende a fundo, o que quis dizer, porém, é inegável que o texto é insólito e lindo.
    Adorei!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  7. rapaz...
    poema ao fio
    quero um amolador de facas deste para mim rsrs

    belo demais
    abs

    ResponderExcluir
  8. Uma prosa imensa onde saio levando comigo os ecos dos teus passos pelas ruas vazias... quem sabe eu não tropece em Rimbaud dentro da mercearia e acabe por ser atendida por um médico de Cuba.Ainda assim não conseguiria escrever como vc.Adorei!

    Beijinho, querido.

    ResponderExcluir
  9. Que bom voltar e encontrar uma poesia 'abstrata' que me faz lembrar um outro poeta que diz que a poesia não é para entender é para comer_ e assim leio saboreando cada pedacinho desse sol interior que brilha no seu coração,
    Voltando a ti com abraço e saudade

    ResponderExcluir
  10. Gosto muito de teus poemas assim, para saborear sem muita clareza.

    Andei fora do Rio, por isso não tenho vindo aqui.

    Beijo!

    ResponderExcluir
  11. Real mente, a tua lira reluz em meio a qualquer breu... A cada verso, um deleite se aclara.

    Dorei, dorei, dorei!

    Beijo, caríssimo*

    ResponderExcluir
  12. [ soprando temas para delírios.
    Já não creio nem duvido.
    Viajo. Amo]

    Beij0

    ResponderExcluir
  13. Boa tarde José Carlos.
    Passando para lhe agradecer pela felicitação do meu aniversario,obrigada e lhe desejar um lindo final de semana.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  14. Bom dia José Carlos.
    Estou vindo para deixar um pouco do meu carinho ,rsrs, você merece.
    Um lindo final de semana,espero que você o aproveite bastante.
    Beijos.

    ResponderExcluir