quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ode à falta de um sol real

Imagem da Web



Como se eu tivesse um alaúde, mas digo que é outra coisa,
talvez rubro ou incolor esse eclipse na festa.
Pular da cama pode safar Madalena, mas o melhor 
é que ela não o faça, seria como apanhar um metrô,
sem conhecer as linhas, que serve no dia a dia
a executivos da classe média.
E aquela piscadela, esqueceu? O que houve, Mada?
Não tenho talento para esse desespero
nas ruas vazias sem o meu amolador de facas.
E Rimbaud não se assustaria ao ver-me versejando,
meiga vertigem perdida, nas míseras cadernetas
do armazém da esquina? Aquele filho da mãe
dono da mercearia sempre acrescentava um pouco mais
nas contas da semana, na hora de fechá-las.
Mas somos precoces na hora do choro da saudade
e perdemos tudo na aposta. Me espera, eu não demoro,
ainda glosamos juntos como num poema bem resolvido?
Ou então durma agora; o desamparo é uma lástima 
ociosa, e o teu médico, cubano, não fala bem o português.
E agora, já sem a luz do sol, confesso que este é 
o meu fogo de poeta, por isso digo todas essas coisas, 
enquanto a fumaça do cigarro sobe e perde-se
pelas frestas das telhas da cumeeira da casa. 

(José Carlos Sant Anna)


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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O gol perdido




O porteiro gritou tão alto sua indignação quando viu a bola perdendo-se pela linha de fundo que o prédio inteiro acorreu à janela para saber o que tinha acontecido. Ela, então, se aproveitou da gritaria e foi embora sem dizer adeus.
Era o meio da tarde. Um pouco depois das quatro horas... A última vez que a vi.
Nunca mais esquecerei aquele olhar.
Agora que ela se foi, descubro que o melhor é que não tivesse ido, pois, sem que eu soubesse, os profetas também abandonaram a igreja, e os anjos barrocos do altar não me ouvem.
São inúteis as minhas lamúrias no vão da nave. Por que vim parar aqui, eu não sei. E nada ao redor justifica a minha presença, perdida, dentro da igreja.
Levitando, lavo os lhos com as próprias lágrimas. E como se fosse possível segurar as nuvens, levanto as mãos, e os olhos, lavados, para o alto e me pergunto:
– As montanhas sempre estiveram ali?
Na minha boca os laivos da agonia daquele olhar. Pergunto-me ainda por quanto tempo guardarei aquela imagem. Mas não quero resposta porque serei sempre um prematuro para entender o tempo absoluto do amor. O tempo do amor é sempre um tempo de fome. De carências. De renúncias. E as mágoas são um cacto, dilaceram como um cancro.
Abandono essas reflexões tolas quando o padre, paramentado para dizer a missa, entra. Me despojo das meias e dos sapatos. Me sinto mais puro assim. Contrito, dobro a bainha da calça até o meio da canela, pareço um matuto, mas sou um burguês, é o que eu sou, de pele amorenada, querendo que um deus resolva essa pendenga.
Somente Ele e eu sabemos do que se trata. Afinal, Ele sabe tudo, não é o que dizem? Além disso, você não me perguntou, e eu também não lhe disse por que ela foi embora. Achei que não lhe dizia respeito.
Aliás, acho que ela também não sabe por que se foi, disse-me simplesmente que estava saindo da minha vida, sem mais por que. 
A última vez que a vi foi quando o porteiro do edifício se indignou com o gol perdido pelo artilheiro do seu time. 
Um pouco depois das quatro, já disse. Um perna de pau aquele jogador medíocre. O único que não sabia disso era o porteiro.

(José Carlos Sant Anna)

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O amanhecer


Na chaleira o chamego
esquenta o fogão de lenha
no quintal suspenso

e espalha no corpo um gosto
de maçã verde e jiló,
roçados ao pé da escada.

E nos prenúncios de um café
depois de cálidos
aconchegos na cozinha

apalpo nela a ternura
e a minha colher de madeira
dá-lhe uma leve palmada

na cumeeira para sentir-lhe
ao redor da mesa a forma 
ainda com a lamparina acesa.

E já sem fundir os corpos mornos
naquele chão encerado de suor
beijo suas mãos umedecidas

e o alho trava o hálito
da vida pelas picadas afora
nas contas de um rosário. 

(José Carlos Sant Anna)



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