sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Postais III


Outro dia a voz de Otelo galgou os fios do meu telefone como se fosse o canto da cigarra atravessando a tarde e jogou a sua alma de encontro à fraga. Para uma alma que anda sem rumo, qualquer estrada pode ser estreita. Percebi aquele vinho ácido. Otelo já estava ancorado no meu telefone e não me poupava os ouvidos falando do seu criador sem parcimônia. Dizia-me coisas inacreditáveis que deixariam ruborizado o próprio Shakespeare. Uma fúria sem gala, que ia minando dentro de mim um túnel. Deixei-o falar a tarde inteira, profanando as flores, destruindo o carro mortuário, como se as exéquias estivessem ocorrendo naquele exato instante. Como já me habituara a essas tempestades, fechei os olhos e me abandonei àquela ladainha como a uma liturgia de um culto religioso, por exemplo. Quantas vezes eu contemplei na minha infância o abate de um porco? Ainda ouço os seus gritos de desespero quando a insônia invade as minhas madrugadas, parece gritar todo o horizonte dentro do meu peito. Morria em pleno dia, sem escolher a hora, sem poder inventar uma verdade para a vida, ainda que a vida não passasse de um cálculo aritmético para a sua pena no bolso do abatedor. 

(José Carlos Sant Anna)



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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Postais II




II.
Leve espessura, fugaz, complacente. A música se dilui, o que me leva a escutar lençóis e fronhas em suaves ondulações, hálitos de brancura, enquanto as mãos e o olhar se tecem. Livre, abre-se ao meu corpo o teu palácio, as tuas tranças negras me envolvem como um sopro mais alto, águas que não se cansam, aromas de pedra, perfumes de cântaros resvalam tangíveis. Me abandono em espirais brancas, voluptuosas, em todas as partes da morada do teu corpo, entranhas mudas impõem-me um flagelo pelos teus ermos, onde por fim vou saber existir nas comportas abertas onde o meu ser inteiro mede a si mesmo sem que a chuva passe nos rumores da língua. E ardendo como uma lava em manchas de óleo me afundo. Então, parte alguma de mim se intumesce incendiada pela tua corola, boca impetuosa.

(José Carlos Sant Anna)

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sábado, 22 de novembro de 2014

Postais I





I.
No duro, gravatas servem tão somente para enforcar os que não sabem aproveitar a vida e outras miudezas. Por isso, deitado aos teus pés é o que faço, sem alardes, aproveito a vida, na penumbra, entre gritos e sussurros. É uma delícia lambê-los, trôpego, inaudito, e depois mergulhar no seu impudico sexo. Já há muito sou refém dessa fruta madura. E os meus dentes não se cansam de moer sem cessar a tua carne nesse divino ócio: sonhos palavras músculos. E, na modulação dos dias, sob os lençóis que abrigam as nossas fantasias, acreditamos que viveremos para sempre nas gotas resvaladas porque sabemos que o tempo não passa quando se morre. E antes que o sol interrompa este interlúdio, vem para cima de novo, e vamos fazer outra sessão de cinema ousadamente pós-moderna  nesta sala mal iluminada. 

(José Carlos Sant Anna)

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Utopias



I
É inútil fingir      se acaso
as amêndoas nas minhas mãos fossem
sílabas catadas no chão do teu corpo
não estaria eu agora
limpando 
os meus óculos com a bainha da camisa

III
Tão súbito verso 
 e o uivo agudo 
do clarim 
para iluminar 
o breu. 

IV
Que venham
as vinhas
os devaneios

ao sabê-lo 
um veio,
não o parto 
ao meio 


(José Carlos Sant Anna)
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Do meu caderno de exercício

Imagem da internet



Aquelas palavras calaram a música da vizinha do quarto andar. Tento revivê-la agora que as estrelas dormem, mas já não lembro a melodia. E me pergunto, então, por que me dispersei? Que estranha potência havia naquelas palavras que me afastaram do feixe de luz que parecia estabelecer um elo entre um prédio e outro? Do lado de cá já começava a inventar um novo modo de ser, já efabulava em silêncio, como um corpo procurando por outro, uma história simplória em que a agregação deles se costurava em rios translúcidos, percorrendo as sombras dos vales, sem impor limites às mãos que dançavam ao ritmo da melodia, aflorando sustenidos e bemóis nas membranas do tempo. Um doce calor já se espraiava pelo meu corpo apagando os antigos ruídos. A cada agudo que entrava pela janela alguma coisa em mim se partia, trazendo consigo um leve sorriso apenas pressentido. Renascia na voz repleta de tudo, na face encoberta pela cortina, a chama que, em si mesma, recriava um lúdico instante. Sabia que era um desejo de aventura que já transpunha meu corpo. Uma cópula de sonhos não vividos, mas imaginados porque sabia que ela me olhava em lúbricas tensões subvertendo o seu canto. Havia um código secreto na extensão da voz que ainda não alcançara. Será mesmo que havia? Eu sabia que sim, tinha certeza de que sim, sempre achava que conhecia a essência da alma feminina, como se fosse um self service, mas o meu outro dizia que não, dizia que aquele canto abrigava tão somente o tédio irreal, absoluto, da moça do quarto andar, fazendo das suas cortinas uma burca para esconder o rosto porque sabia que o seu vizinho seguia sempre o rumo oposto do que ele expressava. Aproveitando que o meu coração estava desguarnecido, queria romper, enfrentar aquela situação propondo aos gritos entre uma janela e outra partilhar os destinos ou despencar no mesmo abismo, como se tal coisa tivesse sentido. Uma única vida, dizia. Quando há dentro da gente um vazio, uma lacuna, a gente se mexe, se retrai, mergulha, se afunda, agarra o cipó como um náufrago, se inventa. Até um recomeço. É o que imagino nas gotas de sangue que borbulham nas minhas veias que ameaçam explodir. Foi Nina quem me disse com a língua de fora, esvaída mas insatisfeita, que mentimos para sermos ainda que nada sejamos depois que um corpo sai de dentro do outro. Já sinto falta desse gostinho de aurora, já não posso deixar que mais um dia vá, que mais um dia venha, pois só vivemos um dia de cada vez. As cortinas se fecharam abruptamente, já não florescem palavras nos lábios do aprendiz de feiticeiro que já engendrava um beijo, liames, um frágil abrigo para os olhos. Agora são névoas, e as ruínas da dor de um lado e do outro sem eu que descubra o significado das palavras que calaram aquela voz. Além desse gostinho de amar que ficou na boca, volátil, ainda palpita o coração, mas nenhuma metáfora substitui os cacos corrompendo o vazio dos dois lados. Não fosse tudo, já seria tão pouco...

(José Carlos Sant Anna)

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