domingo, 1 de dezembro de 2013

Exercício para flauta, oboé e cedilhas






ando atarantado porque o meu revisor é um tonto. 
às tontas, em coma pré-falimentar e sem um licoroso vinho, tudo porque ele já não sabe que, ao deixá-las em infusão, as minhas cedilhas não devem ser esquecidas nas panelas de ágata.
já lhe disse também que é sempre prudente deixá-las em fogo brando por dez a quinze minutos. 
todavia, com o auxílio de uma boa lamparina em garrafa alaranjada e, portanto, indiferente à falta que faz o gengibre na minha cozinha, a página da minha escrita em folhas de flandres acolhe em preto e branco um alvo arredondado, ralado sobre vegetais bem temperados, sem que falte a pimenta dedo de moça para uso em doses homeopáticas sem contraindicações.
sem aflorar por completo as minhas fadigas, o que menos se poderia imaginar na página das minhas rasuras é que viajariam a uma distância de cordilheiras azuis e poéticas para as mãos de uma moça iluminada as minhas cedilhas
uma embarcação rara, frágil poema,
     alvejado pela seta de uma alba anelada pelo sorriso dos lindes da fala.
dardo arco flecha: quis arriscar outra palavra.
mas persistiu o alvorecer que puxastes do bolso do teu colete me tirando o sono que emergia do porvir 
com o auxílio oportuno do enigma, além da nódoa já impressa.
agora me ocupo da delicadeza das tuas palavras, sem brecha para qualquer gesto inútil, 
mas ainda estou em aperto com as cedilhas, em aperto à sombra de quê
um vão profundo em que cedilhas não têm acento, 
mas sinalizam as vergonhas do pássaro sem cedilha em exercício de flauta e oboé.

(José Carlos Sant Anna)

13 comentários:

  1. lembrança tem cedilha,
    esquecimento, não
    lembrança é companhia,
    esquecimento, solidão...

    beijo, poeta admirado!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada ,chegou aqui um som de orquestra !
    Vamos exercitar da forma do oboé _ afinando os instrumentos,acompanhando o maestro...
    E gosto dos temperos _ é possível degustar delicadamente cada palavra com sabor delicado denso e rico em afetos.
    Ter sons reconhecíveis é uma forma bonita de ser poeta.Parabéns.Eu amei!
    deixo abraços ao Carlos

    ResponderExcluir
  3. este exercício
    mais som
    que o cicio


    abração

    ResponderExcluir
  4. Com ou sem cedilha suas palavras são uma delícia.Fico sempre encantada com a leveza e a destreza das suas palavras.

    Beijinho.

    ResponderExcluir
  5. Tudo tão bonito , tão delicado , encantador , como sempre.
    Obrigada , José Carlos , pelos presentes que nos oferece .
    Beijos

    ResponderExcluir
  6. Oboés, cedilhas e flautas: exercício em alta!

    Um beijo, caríssimo maestro*

    ResponderExcluir
  7. E até a música exige trabalho e exercicios.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
  8. Um grande regente-poeta: ô, menino, quanta beleza e destreza na tua poesia! Quero o livro...

    Beijos,

    ResponderExcluir
  9. Poema identificável de um revisor tonto, além de divertido!

    Abraço, menino!

    ResponderExcluir
  10. [um poema para
    para afiar o meu gume,
    para ganhar arestas
    onde sou muito polida.]

    né?


    beij0

    ResponderExcluir
  11. Boa noite José Carlos.
    Acho que a musica exige disciplina e empenho,para mim é um dom.
    Amo musica,gosto muito de piano.
    Uma linda quinta-feira.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  12. José Carlos,
    Pintalgando aqui e ali, cedilhando, olhando, rindo, tentando criar, tentando entender, tentando entender... e as cedilhas atrapalhando...!
    O meu olé!

    Abraço

    ResponderExcluir