terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Vinde a mim 2014!



Apenas o começo como se não faltasse o quando ou o quase Logo que percebi, consultei o relógio de farinha de trigo antes que se transformasse num pão quentinho ao apagar das luzes de um ano morno: este que se finda E sem medo de ser feliz, pisei a areia da praia [pularia as minhas sete ondas com as minhas vestes brancas] deixando as minhas pegadas num despropósito sem explicação Caminhei mais um pouco e entrei na água fria Caso me sucedesse alguma coisa lá estariam as minhas pegadas As pegadas são sempre um indício, ainda que sejam muitas na areia numa noite em que os corpos suados se banham de espumante As pegadas As minhas pareciam umas letras no papel como a minha escrita: uma aranha tecendo vaga-lumes As coisas são parecidas, mas a mancha das minhas pegadas têm um quê diferente. As minhas pegadas Rogai por elas, menina Sempre existiram, já não preciso senti-las. Mas ainda é um vulto o ano que mal começa Apenas um suspeito num primeiro flash do repórter Ainda vou esperar muito até descobrir se 2014 valerá um poema, uma lágrima ou qualquer outra coisa que valha a pena.

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Confissão


foto: arquivo pessoal



Se os teus lábios túmidos
aceitassem o meu outono

Que me açula e se ergue
Entre musgos e lamparinas

Eu dançaria um tango
com o teu corpo desejado

Aberto qual rosa fascinada
Em límpida harmonia

sem ninguém para nos dizer
Como o sol se amainaria

haurindo o chão da vida
Com volúpia e alegria! 

(José Carlos Sant Anna)




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O que eu sei da tarde e não digo?


Põr-do-sol em Porto Covo, litoral português

A tarde
se esvai silente.

Vejo-a descendo as escadas
pé ante pé
como se eu não estivesse
em sua retaguarda
sem aspiração e sem rumo.

Antes do último passo,
ela olha para trás
e suspende um alpendre
a separar-nos.

É dissolvente o seu olhar.

Devorada,
este inquilino da noite
volta-se para a sua harpa
e as primeiras notas
sulcam o horizonte.

Nada mais
me prende às suas garras.

É uma toalha de névoa,
uma água entornada
com manchas de vermelho.

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Leitura para o Sinal Fechado






– Sim, amor, eu não sei como dizer o quanto I love you, baby, o que eu sei agora é que não volto para o jantar, pois, além do trânsito, a cidade está parada, metamorfoseada. 
– ...
– Você sabe que o ar-condicionado está quebrado e já estou suando em bicas, meu amor...
– ...
– Sei, sim, eu sinto o cheiro daqui, apesar do odor da gasolina, do gás carbônico empesteando o ar, sinto o cheiro daqui...
– ...
– Você fez um Yakissoba e está morrendo de fome?
– ...
– Não sabe se vai esperar eu tomar um banho?
– ...
– Não, não ouvi, fale de novo...
– Não, spaghetti ao molho de camarão...
– Você sabe que adoro, é o meu prato predileto
– ...
– Adoro, você sabe, é o que eu disse...
– ...
– Pode, sim.
– ...
– Pode me agarrar antes ou depois do banho, também pode ser antes do jantar...
– ...
– Não tem sobremesa? Você?
– O que disse, amor?...
– Estou ficando ansioso, baby, um sujeito mal-encarado...
– ...
– Ele está esmurrando o vidro do meu carro...
– ...
– Vem vindo um bando...
– ...
– Não sei o que está acontecendo,
– ...
– A cidade está em chamas,
– ...
– Estou com medo, não sei o que está acontecendo...
– ...
– Acho que serei o próximo...
– ...
– Eles se aproximam...
– ...
– O sinal vai abrir... O sinal abriu...
– ...
– O motor do carro...
– Até...
– Mas... amor?... Mas... 

(José Carlos Sant Anna)




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Interlúdio do mirante para Julieta

Romeu e Julieta

                                       
Dupla caipira
catando limão doce 
no mato 
à luz das estrelas 
se não perder 
o tino 
pode dar um xote

Mesmo enfronhado
tanta nudez assanha
este poema
e sem um limão doce
não paga os restos
da prece
e ainda fico num dilema

entre o voo e o laço
Julieta assoma
no rosto é só 
martírio e cansaço

ainda assim
os corpos se abraçam
e se matam
em uníssono gozo
e único ato. 

(José Carlos Sant Anna)





domingo, 1 de dezembro de 2013

Exercício para flauta, oboé e cedilhas






ando atarantado porque o meu revisor é um tonto. 
às tontas, em coma pré-falimentar e sem um licoroso vinho, tudo porque ele já não sabe que, ao deixá-las em infusão, as minhas cedilhas não devem ser esquecidas nas panelas de ágata.
já lhe disse também que é sempre prudente deixá-las em fogo brando por dez a quinze minutos. 
todavia, com o auxílio de uma boa lamparina em garrafa alaranjada e, portanto, indiferente à falta que faz o gengibre na minha cozinha, a página da minha escrita em folhas de flandres acolhe em preto e branco um alvo arredondado, ralado sobre vegetais bem temperados, sem que falte a pimenta dedo de moça para uso em doses homeopáticas sem contraindicações.
sem aflorar por completo as minhas fadigas, o que menos se poderia imaginar na página das minhas rasuras é que viajariam a uma distância de cordilheiras azuis e poéticas para as mãos de uma moça iluminada as minhas cedilhas
uma embarcação rara, frágil poema,
     alvejado pela seta de uma alba anelada pelo sorriso dos lindes da fala.
dardo arco flecha: quis arriscar outra palavra.
mas persistiu o alvorecer que puxastes do bolso do teu colete me tirando o sono que emergia do porvir 
com o auxílio oportuno do enigma, além da nódoa já impressa.
agora me ocupo da delicadeza das tuas palavras, sem brecha para qualquer gesto inútil, 
mas ainda estou em aperto com as cedilhas, em aperto à sombra de quê
um vão profundo em que cedilhas não têm acento, 
mas sinalizam as vergonhas do pássaro sem cedilha em exercício de flauta e oboé.

(José Carlos Sant Anna)