terça-feira, 26 de novembro de 2013

Outro metaplágio para a poesia de Adília Lopes

             foto arquivo pessoal

Mal me acordo
arrasto  a mão
para cabeceira da cama
atrás da poesia de Adília Lopes,
que me espia desconfiada
escondendo os biscoitos maria
para que eu não os devore
sem freios.

Duro no trato, sem cerimônia,
apanho-a no laço
e depois de desposá-la
descubro que sou o que não pareço
e sob uma chuva escura
deito-me sobre anáforas e assíndetos

E numa nudez
sem perdão
atravesso a espessura
do papel tocando a pele das palavras
de modo imperativo, 
instantâneo,
muito além dos joelhos e das ancas
que o vestidinho floral
em rebuscado anonimato
camufla.  

(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Entre favos de mel e morfina


"Por onde anda este menino?"

A redação diz que não sabe
por onde o menino anda

São cartas e mais cartas  sem resposta
nas páginas do jornal.

Mas por saber 
que o amor não fala
é que lhe digo:

o menino arde em vagens
ou anda pela vastidão
querendo descobrir
o lugar onde esperar-te

Ou fugindo de pesadelos, 
de sonos demorados, 
de sonhos vagos

Ou inscrevendo 
o teu nome numa rosa
quando não enlouquece. 

(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Improvisação para duas musas

Kandinsky - Improvisation 7

para Joelma Bittencourt e Tania Regina Contreiras


I.
Vital
que a pedra dure
e na eternidade
não haja
escassez do nada.

II
E se fosse uma foto
quente o teu olhar
violaria sem que
eu chamasse loucura
a tal atrevimento?

III
Oh! quanto lirismo
para falar de uma dor
que afaga

No olhar cinza
do último dia, o blues
de Nina realçava
o plúmbeo da despedida

Era o que eu não sabia. 

(José Carlos Sant Anna)

domingo, 17 de novembro de 2013

Sob o meu nariz


Para Gustavo Neiva Cumming, 
menino de coração de ouro



naquele solo
o trompete é uma água tão pura
ninguém entrou nele

mas há marcas de sapatos alheios
e o impasse da geografia exilada
é o fracasso do gozo 

que mastiga
o fôlego do feijão tropeiro

aquele solo 
onde o tráfico rola
é a ruína da língua, um tiro no peito

mas não fui eu quem pôs arma ali
e se ninguém morreu   
é porque

há muitas vidas no zelo da droga
nas ruas que vigiam por ela.

Aquele solo 
é o estilete da fuga

[o trompete insinua outro solo]

liminar para a morte sem medo

e o absurdo desce as escadas 
do morro a galope,

desdenha dos vivos à parte, 
sobrevivendo à própria sorte. 

(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 5 de novembro de 2013

Contracanto II



Na tua lição
o corpo
[nele pelo teu olho
               sou exato]

me propago incisivo
nas calorosas águas do prazer,
na alegria das tardes calmas

e no desprender-me do lume
na hora do exultante gozo
dos corpos aninhados

É preciso olhá-lo
como se nele dançassem
amêndoas na foz do teu rio

como se um peixe distraído
violasse as polpas das tâmaras
incrustadas no teu corpo

e engolisse as ondas altas
no ardor da tua sede

alagando o meu corpo
com os teus beijos disseminados. 

(José Carlos Sant Anna)