quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Contracanto





E se não fosse a dispersão
a mão perdida
este avesso, os lábios leves,

a cicatriz viva do silêncio
descosturada se evadiria

na piração da tarde esquálida
por onde eu já tinha fugido 
com o meu duplo

eu que sempre fui a soma 
dos contrários não canso 
de cessar-me em poentes

com este olhar perdido e cego
enquanto leio Proust
em busca do tempo perdido

eu que sou tecido 
pelos fios das aranhas
vagamente tão finos 
                        rasgo as frestas

eu que efabulo 
as contradições dos cristais
numa troca bizarra de banquete

e nas dobras do guardanapo
os talheres são o instante de esplendor

e a marca deste poema no meu rosto
o óleo que mescla nossos corpos

desembaraçando o novelo das nuvens
e saudando com ternura o louva-a-deus 

que me espreita distante
medindo a altura do seu voo 
                                 para escapar-me.

(José Carlos Sant Anna)

20 comentários:

  1. Esplendor e prosa de Proust não deixam que nada escape desse poema, José Carlos.

    Beijo

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  2. Que beleza , José Carlos . Agradeço a partilha de sua escrita , como também , a visita carinhosa ao meu blog . Beijos

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  3. Eu contracanto
    Tu contracanto
    Laços estreitam-se

    Beijos, poeta admirado!

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  4. José Carlos, que arrebatamento, esse poema! "eu que sempre fui a soma
    dos contrários não canso /de cessar-me em poentes". Noooooosa!!!

    Beijos,

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  5. Penso que algo mudou e não há como fugir e talvez, nem queira...

    Poema enorme e genial, José Carlos e se mostra diferente a cada vez que leio.

    Beijo.

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  6. Querido José Carlos, você está bem? Está com febre? Esse poema não é bonito rs, é MARAVILHOSO!
    Como não vi, antes de você, a cicatriz do silêncio, não percebi a piração da tarde, não me deixei tecer pelas teias das aranhas, nem rasguei as frestas que você acabou rasgando ante que eu o fizesse...Amigo, fabuloso, adorei. Beijo!

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  7. Aniversário? És também escorpiano? Parabéns, poeta querido! Que seu mundo interior se inunde dessa poesia maravilhosa SEMPRE! Parabéns, muitas realizações no novo ciclo...
    Abraço apertado.

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  8. tu aniversarias e eu ganho de presente a leitura deste poema fabuloso

    grande abraço/vida longa/poesia em profusão

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  9. Um poema majestoso
    inspiração dos 'tempos que passam' e que cada vez ficam mais adocicados.
    Parabéns!

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  10. Este poema é uma pérola...

    Meus parabéns, poeta primoroso!

    Beijo, caríssimo*

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  11. Um poema de mestre, sem dúvida!
    Ah! Esse olhar cego...qual nada...você enxerga longe e escreve maravilhosamente bem!
    Abraços.
    M. Emília

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  12. "que me espreita distante
    medindo a altura do seu voo
    para escapar-me. "

    Me sinto tão assim, buscando escapar de mim.

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  13. Vez por outra (ou melhor, quase sempre) você me põe em silêncio. Muito foda.

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  14. José Carlos, que delícia reler esse poema...Beijos!

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  15. E eu desembaraço o novelo de nuvens
    E dou os parabéns ao escorpião
    Pelo poema...pelo aniversário (que deve ser por estes dias)
    E a marca deste poema estremece o meu coração

    Bjs

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  16. Nas voltas que demos conjugamos poentes, nas voltas que ansiamos conjugamos estrelas, algumas vezes cadentes. Entre o ir e o ficar tecemos teias criativas, cativantes, mas quase sempre o milagre não acontece.
    Em grande, José Carlos, obrigado pela reflexão!

    Abraço

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  17. Também não sei o que dizer. Tua poesia é das coisas mais refinadas que conheço nesta blogosfera. Um abraço!

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  18. Embora por aqui já me tenha perdido, hoje as palavras dançam de forma diferente, a releitura traz sempre algo de novo. E...isso...eu gosto.

    Nesta dispersão por onde navegas e a que tratas por tu, há um avesso de ti incontrolável, que não consegues agarrar pois é como sombra.

    Gosto tanto da imagem de te cessares em poentes e te traduzires na soma dos contrários.
    Percebo ainda essa vontade de perseguir o tempo que corre demasiado depressa: te cansas, mas não desistes.

    Sempre te escapas, em voo, nas letras ou, tão somente, em pensamento.

    Parece-me que desta vez encontrei a saída do labirinto.

    Obrigado pela doçura do poema, é contracanto sublime.

    beijo

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