sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A dançarina

Lartigue




por anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
na boca acesa e no ar compungido
que me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes não escondiam
o desejo entranhado na pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar esse rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha.

(José Carlos Sant Anna)

14 comentários:

  1. Quanto te calas
    não ando.

    São teus lábios
    que me guiam
    sobre os mistérios!


    Um prazer te ler, poeta admirado!
    Beijo!

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  2. Há pessoas que são inesquecíveis, José Carlos... aparecem para mudar tudo para melhor e depois vão -se embora como o vento...

    Destaco essa parte porque é linda e humana demais:
    "agora quando eu lavo os pratos sozinho sinto o desejo e uma saudade..."

    Beijinho e bom fds.

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  3. Ela trazia um rumor e um aroma na boca acesa...Que lindo e fluente poema, querido amigo. Gostei muito. Outra coisa, tem mais é que lavar os pratos, sim rs. Beijão, José Carlos!!!

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  4. Garoto, me deixaste sem palavras. O poema me tragou. És um poeta enorme! Amo te ler.

    Beijos,

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  5. Olá José Carlos!
    Que maravilha! Adoro o poema!
    Conheço um pouco dessa saudade dá um arrepio dentro de nós...
    Bjs

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  6. eu lembrei da "ponta de um torturante/ band-aid no calcanhar"


    abraço

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  7. Balé que se aplaude de pé!

    Beijo, caríssimo*

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  8. José Carlos,
    A admirar sua prosa poética.
    Abraços.

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  9. Amor, despedida e sauda
    fragmentadas em prosa.

    Admiro o modo como explora os mais sublimes sentimentos.
    Abraço.

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  10. Vou lendo e sentindo-me a própria musa _ aiaiai quem me dera ser uma Émily!! rs
    muito bom Carlos muito !!

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  11. José Carlos ,

    Vir aqui é a possibilidade de nos depararmos com o que nos apaixona , nos arrebata .
    Como escreve bem !
    Beijos

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  12. José Carlos, lindo o seu espaço com belas e ricas ilustrações feitas com as palavras mais belas e sensíveis. Ah! os poemas que nos dizem tanto sobre a paixão, o amor, a saudade, a volúpia e tudo lhes é permitido. Lindo! Abraço!

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