quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Contracanto





E se não fosse a dispersão
a mão perdida
este avesso, os lábios leves,

a cicatriz viva do silêncio
descosturada se evadiria

na piração da tarde esquálida
por onde eu já tinha fugido 
com o meu duplo

eu que sempre fui a soma 
dos contrários não canso 
de cessar-me em poentes

com este olhar perdido e cego
enquanto leio Proust
em busca do tempo perdido

eu que sou tecido 
pelos fios das aranhas
vagamente tão finos 
                        rasgo as frestas

eu que efabulo 
as contradições dos cristais
numa troca bizarra de banquete

e nas dobras do guardanapo
os talheres são o instante de esplendor

e a marca deste poema no meu rosto
o óleo que mescla nossos corpos

desembaraçando o novelo das nuvens
e saudando com ternura o louva-a-deus 

que me espreita distante
medindo a altura do seu voo 
                                 para escapar-me.

(José Carlos Sant Anna)

domingo, 20 de outubro de 2013

Dois dedos de prosa I





Ela ouvia a Suíte no 3 de Bach quando o encanador chegou. Ele não se conteve e disse:  
– Bonita a música que senhora está ouvindo. 
Como a música fora a válvula de escape para ela esquecer os transtornos do entupimento e o valor do serviço cobrado, apenas ouviu o comentário. Mas, no íntimo, reconheceu que o encanador tinha ouvidos sensíveis. 
O encanador entrou na suíte e começou a quebrar a parede para localizar o entupimento e a dona da casa desligou o som porque se tornou incompatível a audição dos dois. O baticum da marreta na suíte e a Suíte de Bach nas caixas de som. 
Duas horas depois o serviço estava pronto. Ela entregou as duas notas de cem ao encanador e, com uma pontinha de rancor, disse: 
– O senhor acaba de ganhar em duas horas o que eu ganho em uma semana de trabalho. 
Surpreso e comovido, certamente por alguém com a sensibilidade dela ganhar tão pouco com o trabalho que fazia, o encanador perguntou: 
– A senhora é professora? 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Prece para os teus olhos








Sem a febre dos teus lábios
nas manhãs prolongadas do outono
a vida respira

Aos poucos
cavo sulcos num rio de manguezais

As palavras sobem à roda das margens 
e as dunas são um frágil lenço ao vento

como se não houvesse um corpo distendido

E por mais amargo que fosse o chá
era o pouco que eu tinha sem a tua febre

E só um baiãozinho,
animaria este corpo selvagem

E nada mais poderia tardar a nostalgia 
das paredes nuas se os teus olhos 
não me encharcassem com a tua incandescência

Eu sempre tive a certeza disso. 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A dançarina

Lartigue




por anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
na boca acesa e no ar compungido
que me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes não escondiam
o desejo entranhado na pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar esse rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha.

(José Carlos Sant Anna)