domingo, 8 de setembro de 2013

O domingo


Mal rompe a manhã, o domingo arregala os olhos lentamente. Espia para um lado, espia para o outro, sentindo-se só, pois os verdadeiros donos da casa estão ainda sob os cobertores entregues aos últimos sonhos matinais. Cheio de si, o domingo pula do calendário num sopro de vida, num rasgo de felicidade.

Ainda em desalinho, ele arrasta tão preguiçosamente as sandálias pelo apartamento, que até os galos da vizinhança se espantam (ainda os temos por aqui, são poucos e preguiçosos, não se surpreendam). Não são vistos, mas são ouvidos, ao contrário do domingo que, embora despretencioso, desperta cedo. E a cada novo domingo, este diz para si mesmo:

– Não sonho, não espero nada do futuro, vivo o hoje, o mais não importa, basta-me o carpe diem.

Quando Carlos acorda, o domingo já escovou os dentes; já tomou uma ducha de água fria para levantar o ânimo, como ele também diz todos os domingos e, ainda mais, já se refestelou na cozinha para um café frugal, sem deixar de saborear queijos finos e leves, iogurtes e outras iguarias, pois se sabe diferente, de tal modo que, ao levantar-se e cumprir o mesmo ritual do domingo, Carlos o encontra estirado no sofá da sala lendo o jornal do dia e ouvindo jazz.

– O domingo sou eu ontem ou serei eu amanhã? – Carlos se pergunta, como se o domingo estivesse começando a sua vida àquela hora, mas o domingo, com uma boca impetuosa, diz a Carlos que ele está atrasado para desfrutá-lo, que precisa correr para não perdê-lo por inteiro, pois uma parte dele já está irremediavelmente perdida.

– Seria bom que ele tivesse pressa, o domingo é uma bolha de sabão, num esfregar de olhos já se dissipou – pontua para o desespero de Carlos.

Como Carlos esteve no teatro na noite passada, hoje ele o encontrou com O silêncio dos amantes na mesa de centro com um marcador indicando a página em que Carlos interrompera a leitura no último domingo e o encarte de Ensina-me a Viver, que lhe trouxera doces recordações pela madrugada adentro, incluindo a moça da janela, a que mora do outro lado da rua, além do jornal, que já tinha devorado. O domingo, como não se imiscuíra na badalação do teatro, na badalação do jantar no sábado, incluíra a leitura do encarte no seu programa de domingo.

– Acordo cedo porque saio de cena à meia-noite em ponto – diz-lhe o domingo, quando Carlos se aproxima do sofá, intuindo pelo seu olhar a indagação silenciosa:

– ... E a sua vidinha besta continua, cara, e eu só volto daqui a uma semana, queira ou não. Posso até não voltar, sair da sua vida para sempre. O dia é hoje, o amanhã é um ponto obscuro no horizonte.

Depois, como percebesse sua insolência, gentil, recolhe as almofadas e cheio de mesuras diz-lhe que ficou encantado com o texto do encarte, o que o fazia supor que a representação tinha sido melhor do que o que se anunciava no texto, acomodando-se ainda mais no sofá, na expectativa do que Carlos poderia falar-lhe da encenação da peça. Para os seus botões, Carlos diz “domingo folgado”, já não o suporto mais com a sua rotina, nada de novo domingo após domingo e, como se não bastasse, ainda espera uma fatia do sábado para quebrar a pasmaceira da qual é também protagonista.

Protagonista, sim, pensa Carlos. Desde que o douto juiz denegou o pedido de falência do domingo arguindo falta de argumentos na sua petição com um punhado inquestionáveis deles, o domingo, embora leve e cheio de ternura, é uma bala que fere; ainda que leve, o domingo é uma sentença viva, que o apunhala, esvaindo sangue por todos os seus poemas, espalhados pela casa, colados nas paredes. Colou apenas os seus. 

         Quando o domingo saltou pela primeira vez do calendário, já os colecionava, só não sabia o que fazer com eles, depois que a alfândega fechou a ponte. Eles queimavam tanto que o melhor seria expor a carne viva, sem mistério. Embora o mistério do vazio fosse dilacerante, com marcas visíveis. Sabia que na plenitude as palavras nem sempre ferem, as palavras nem sempre se armam no jogo amoroso dos contrastes. 

– É bom que saibas, minha cara –, diz Carlos para a bruma que enche os seus olhos – nunca descobri de que lado soprava o vento quando quis empinar pipa ainda menino.

8 comentários:

  1. e eu desejo a você, fruto do mato, cheiro de jardim, segunda sem mau humor e sábado com seu amor
    - Carlos Drummond de Andrade

    abç

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  2. Ma-ra-vi-lho-so! rs Eu nunca saberia falar de domingos, eles me deixam sem voz. E você lustrou eles até brilhar.

    Beijos,

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  3. Querido amigo José Carlos, o sétimo dia da semana é mesmo uma bolha de sabão sem graça. Porém, pensando nisso, você abriu as portas do domingo e se inspirou, reviveu fatos do cotidiano, dialogou com ele e com a bruma. Como resultado, surgiu esse belo texto. Gostei! Beijo!

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  4. domingo, domingo e eu só li na segunda
    comungo e partilho

    abraço

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  5. Domingo é mesmo uma bolha de sabão, tem toda razão.
    E se o perdemos, nada o fará retornar.

    Beijo, caro amigo.

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  6. Se já disse, repito: penso que a prosa também é a tua praia.

    Todo dia é dia de ler quem nos inspira.
    O sopro que o diga...

    Beijo, caríssimo!

    ...

    Domingo em campo
    Interno limbo:
    Rola a bola de tédio
    Feito pedra de bingo

    (Cris de Souza em Lira dos dias alterados)

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  7. Sua crônica é genial.

    Acho que não existe nada pior que domingo à noite, nem mesmo a segunda-feira é tão ruim.

    Beijo.

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  8. Ao ler o seu texto, lembrei-me do que algumas pessoas sentem quando têm algo que contraria a sua rotina. Estão tão viciadas que já não sabem sabem separar o trigo do joio, pois as amarras estão sempre à vista.
    Excelente texto, José Carlos!

    Abraço

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