sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O sax vândalo



Na casa da memória há velhos ruídos
meio que adormecidos

[ainda tenho algum tempo, 
é o que me digo, para despertá-los]

Um clarão que dorme
em si mesmo, 
códigos secretos o guardam

jamais se saberá o que instiga 
esse hóspede,

membranas do tempo 
se tecem 
entre becos e vielas
enquanto estações e acasos 
habitam o meu tédio vagabundo

agora é hora de fazer o chá 
on-line das névoas;
descerrar histórias no limite do absurdo

[palavras que ondulem sem que 
se teça a sorte futura delas 
no frágil
abrigo dos meus olhos]

Rios e noites. 
Noites e rios costurados 
sem agulha e linha, 
bordados,
encobrindo os sonhos dos breves liames
com este sax vândalo. 

(José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Por onde anda Felisberta?




Pus à parte as palavras:
cinzentas de um lado, claras do outro,
escrevendo-as sempre com as pontas dos dedos

[sem esquecer Berta
que era pura brancura
no nome, no desejo e no corpo]

com uma tinta branca no meu corpo
para a alegria de Felisberta
a professora que encheu os
meus olhos de lança-perfume
e depois me tomou nos braços
escavando o meu corpo
como se fosse uma página aberta
da minha escrita

num corpo a corpo de água
fazendo-me esquecer aquela 
queimação nos olhos para 
entregar-me à outra em que ela me iniciava
sem esclarecer o abismo 
das minhas mãos em busca 
do seu corpo, do seu rosto
e dos dentes das letras na sua boca 
de mil bocas sede ardente me engolindo.

(José Carlos Sant Anna) 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Abolição

Flávia Junqueira



Ele só ficou sabendo
que hoje é o dia do sexo
ao entrar em casa
e encontrar as lingeries provocantes
e outros objetos eróticos
sobre a cama do casal e ela 
só ficou sabendo
que hoje é o dia do sexo
ao entrar num sex shop
com uma amiga e encontrar
o luminoso com o slogan
"todo dia é dia de sexo"
na entrada da loja
despertando ainda mais
o desejo de saciar o seu desejo
fazendo-a levar para casa
as lingeries provocantes
e outros objetos eróticos
para apimentar a relação do casal
que mais parecia um freezer
mais tarde depois do vinho
e um jantar à luz de velas
os corpos redobradamente 
riram de prazer
com a porta do quarto aberta
e a luz do abajur acesa
e enquanto os corpos
ainda se tocavam
um olhar cúmplice decidiu
abolir a agenda
onde estavam marcadas 
no calendário as datas 
das sessões de sexo do casal.

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 8 de setembro de 2013

O domingo


Mal rompe a manhã, o domingo arregala os olhos lentamente. Espia para um lado, espia para o outro, sentindo-se só, pois os verdadeiros donos da casa estão ainda sob os cobertores entregues aos últimos sonhos matinais. Cheio de si, o domingo pula do calendário num sopro de vida, num rasgo de felicidade.

Ainda em desalinho, ele arrasta tão preguiçosamente as sandálias pelo apartamento, que até os galos da vizinhança se espantam (ainda os temos por aqui, são poucos e preguiçosos, não se surpreendam). Não são vistos, mas são ouvidos, ao contrário do domingo que, embora despretencioso, desperta cedo. E a cada novo domingo, este diz para si mesmo:

– Não sonho, não espero nada do futuro, vivo o hoje, o mais não importa, basta-me o carpe diem.

Quando Carlos acorda, o domingo já escovou os dentes; já tomou uma ducha de água fria para levantar o ânimo, como ele também diz todos os domingos e, ainda mais, já se refestelou na cozinha para um café frugal, sem deixar de saborear queijos finos e leves, iogurtes e outras iguarias, pois se sabe diferente, de tal modo que, ao levantar-se e cumprir o mesmo ritual do domingo, Carlos o encontra estirado no sofá da sala lendo o jornal do dia e ouvindo jazz.

– O domingo sou eu ontem ou serei eu amanhã? – Carlos se pergunta, como se o domingo estivesse começando a sua vida àquela hora, mas o domingo, com uma boca impetuosa, diz a Carlos que ele está atrasado para desfrutá-lo, que precisa correr para não perdê-lo por inteiro, pois uma parte dele já está irremediavelmente perdida.

– Seria bom que ele tivesse pressa, o domingo é uma bolha de sabão, num esfregar de olhos já se dissipou – pontua para o desespero de Carlos.

Como Carlos esteve no teatro na noite passada, hoje ele o encontrou com O silêncio dos amantes na mesa de centro com um marcador indicando a página em que Carlos interrompera a leitura no último domingo e o encarte de Ensina-me a Viver, que lhe trouxera doces recordações pela madrugada adentro, incluindo a moça da janela, a que mora do outro lado da rua, além do jornal, que já tinha devorado. O domingo, como não se imiscuíra na badalação do teatro, na badalação do jantar no sábado, incluíra a leitura do encarte no seu programa de domingo.

– Acordo cedo porque saio de cena à meia-noite em ponto – diz-lhe o domingo, quando Carlos se aproxima do sofá, intuindo pelo seu olhar a indagação silenciosa:

– ... E a sua vidinha besta continua, cara, e eu só volto daqui a uma semana, queira ou não. Posso até não voltar, sair da sua vida para sempre. O dia é hoje, o amanhã é um ponto obscuro no horizonte.

Depois, como percebesse sua insolência, gentil, recolhe as almofadas e cheio de mesuras diz-lhe que ficou encantado com o texto do encarte, o que o fazia supor que a representação tinha sido melhor do que o que se anunciava no texto, acomodando-se ainda mais no sofá, na expectativa do que Carlos poderia falar-lhe da encenação da peça. Para os seus botões, Carlos diz “domingo folgado”, já não o suporto mais com a sua rotina, nada de novo domingo após domingo e, como se não bastasse, ainda espera uma fatia do sábado para quebrar a pasmaceira da qual é também protagonista.

Protagonista, sim, pensa Carlos. Desde que o douto juiz denegou o pedido de falência do domingo arguindo falta de argumentos na sua petição com um punhado inquestionáveis deles, o domingo, embora leve e cheio de ternura, é uma bala que fere; ainda que leve, o domingo é uma sentença viva, que o apunhala, esvaindo sangue por todos os seus poemas, espalhados pela casa, colados nas paredes. Colou apenas os seus. 

         Quando o domingo saltou pela primeira vez do calendário, já os colecionava, só não sabia o que fazer com eles, depois que a alfândega fechou a ponte. Eles queimavam tanto que o melhor seria expor a carne viva, sem mistério. Embora o mistério do vazio fosse dilacerante, com marcas visíveis. Sabia que na plenitude as palavras nem sempre ferem, as palavras nem sempre se armam no jogo amoroso dos contrastes. 

– É bom que saibas, minha cara –, diz Carlos para a bruma que enche os seus olhos – nunca descobri de que lado soprava o vento quando quis empinar pipa ainda menino.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Metaplágio para a poesia de Adília Lopes


 Wassily Kandinsky - Improvisation, 27

                                (Dedicado à poeta Joelma B.)

Depois de ler a poesia
de Adília Lopes evito escrever
porque lendo-a na horizontal
vorazmente descubro que não sei
inventar coisa alguma de nada
não está na minha pele esta vocação
mas Adília me leva a escutar
as ondulações minuciosas
do biscoito maria
saboreando-o nas grutas
onde se escondem as cartas de Mariana
talvez escreva ainda
em torno das palavras os tumultos
que me causaram o teu nome
quando um relâmpago iluminou
o sopro desesperado
do teu olhar cúmplice mas havia
um rumor de água no telefone
e essa dilatação das minhas veias
somente cessou depois que as membranas
na limpidez da tua voz se acalmaram
ou a nudez do silêncio é ouvida
sem o cálice de Adília