sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Litania da criação




Quando anoitece
também amanhece
dentro de mim

E o sinal mais breve
da tua presença
é a roda dos teus passos
descendo as colinas

Respiração doce
desprendendo-se de ti,
olhar flamejante
febre nos teus lábios

O grito abafado no escuro,
um punhal dilacerando

Um corpo estendido
vagabundo aflito
a voz tropeçante

Um tecido adiposo
retorcido nas mãos
não pode esperar

É outro corpo súbito
sem pauta suspirando

O respirar de uma vela
irrompendo
o limiar do dia

E o corpo tecido
às margens despido
aguardando 
a tua íris.

(José Carlos Sant Anna)


8 comentários:

  1. Acho bem impressionante o modo como vc escreve, José Carlos. Não dá pra perder.

    Abraço dos grandes.

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  2. as contradições do acontecer, uma poética de inaugurar a roda da fortuna


    abraço

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  3. É muito bom não ver pieguice no belo.

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  4. Sou fã das rodas de tuas letras! As íris viajam...

    Beijo, poeta querido!

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  5. Perfeito, perfeito!

    E o corpo tecido
    às margens despido
    aguardando
    a tua íris.

    Um poeta de surpresas, sempre outro e sempre grande: amo tua lira!

    Beijos,

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  6. Que bela criação, Zé. Dá gosto de ver!

    Beijo, caríssimo.

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  7. Após um período de férias, deparo-me com palavras envolventes, muito envolventes...
    Sempre bem, José Carlos!

    Abraço

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  8. Gosto desta nudez de palavras de que é feita a vida e tua poesia descreve tão bem!

    Beijos, poeta

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