quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Abraça-me em jorro





                                                            Wassily Kandinsky - Fuga, 1914

Qualquer parte
é um todo
como se fora toda a vida.

Mas não vou deixá-la
sem água,
não vou separar
a luz do candeeiro. 

Não vou deixar
sinais das frutas
esmagadas
pelas mãos,

embora
elas também queiram
deixar sinais.

Vamos mordê-las
ainda que amassadas
sem perder a elegância

saboreando a polpa
macia
como uma paixão cega.

Para a moça menina,
nada diria
sobre espasmos
na ligeireza dos meus passos. 

Na paz do seu trote,
queria apenas
um seio amoroso
numa terra inocente.

E dão-me frutas amassadas
e uma efígie
que não posso dizer
que não aceito. 

sábado, 24 de agosto de 2013

As palavras me conduzem pelas mãos



Aquele barco é quase uma lágrima perdida
invadindo o meu poema abruptamente,
é o dardo mais puro no alto do mastro.

A luz de uma lua ebúrnea o arco perdido
e o rumor da água sob o casco
no limiar da madrugada.

Em qualquer parte esquecida a ternura,
os remos, entre a memória e o olhar,
também deixam calos na mão.

E o poema como se eu tivesse fome
mostra seios fartos e mornos,
bolhas que se desmancham no ar.

E as palavras nuas nos corredores do barco
deixam sulcos e sombras ao largo,
pelos caminhos do mar.



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Litania da criação




Quando anoitece
também amanhece
dentro de mim

E o sinal mais breve
da tua presença
é a roda dos teus passos
descendo as colinas

Respiração doce
desprendendo-se de ti,
olhar flamejante
febre nos teus lábios

O grito abafado no escuro,
um punhal dilacerando

Um corpo estendido
vagabundo aflito
a voz tropeçante

Um tecido adiposo
retorcido nas mãos
não pode esperar

É outro corpo súbito
sem pauta suspirando

O respirar de uma vela
irrompendo
o limiar do dia

E o corpo tecido
às margens despido
aguardando 
a tua íris.

(José Carlos Sant Anna)