domingo, 21 de julho de 2013

Poética

      Busto de Aristóteles
                                                                    Cópia romana de uma escultura de Lisipo  
                                              

                                                                         Para Tania Regina Contreiras,


A moça está longe. Nas minhas tessituras é como se ela não estivesse do outro lado, quase consigo tocá-la, tomá-la amorosamente nos meus braços e na minha imaginação.

A vida é desse jeito: às vezes irrompe uma ventania, outras, uma trovoada, o corpo vai se encolhendo, o cabelo caindo, enquanto a criada vai espantando moscas para que a gente não as engula com o bolo da comida amassada pelo garfo.

Sigo pensando nessas pequenas coisas sem tirar o olho da moça, que finge que não me vê através dos gestos suaves que faz com as mãos alisando os cabelos. Com tantas moscas em redor não há ritual plausível para o almoço, ainda mais se o prato principal está tão distante: a moça longe, na outra extremidade da mesa.

Já me inquieto quando ela me cumprimenta se rendendo às moscas. Sem se desfazer do lenço que usa para espantá-las, percebo o quanto aquela aparência de moça fina, embelezada pela vida, me seduz. Ela é agora a minha palavra. Ofereço-lhe o pão, pois o vinho ela já o sorve em goles generosos.

Escrever é um trabalho difícil, penoso, que exige muita disciplina, penso enquanto mastigo o pão, sem deixar que as entrelinhas absorvam este pensamento cartesiano para o momento, mas, de qualquer forma, devo comemorar a minha descoberta porque agora o meu olhar é outro porque a moça também é outra depois da saudação. 
A moça é outra, mas o meu olhar se perde no depois na fragmentação daquele corpo nas minhas mãos como se fosse a poesia, é o que faço com as palavras resgatando sua relação com a vida.

Aquele corpo merece uma atenção interessada como se fosse um lírio, um texto em estado puro que não se pode ler distraidamente. Não posso tomar aquele corpo como se não fosse algo extraordinário, desconcertante. Aquele corpo é a palavra que anima a minha linguagem, é o meu instrumento de trabalho, é a genealogia do meu espírito.

Não abordá-lo agora seria um gesto insano que eu cometeria, é como se fosse a minha literatura requerendo muita paciência, admitindo seus mistérios, afinal, ali está o corpo se oferecendo como as palavras, se descolando de si mesmo para surpreender com um leve toque nas minhas mãos: quase a desnudei com um único olhar ou quase o desnudei nos lapsos do tempo e da memória.  
A moça é a minha escrita, poderia me dar por satisfeito se, de fato, eu também não quisesse a moça da escrita numa baía rosada de amêndoas e avelãs. 

Ali está a minha concisão, o desejo, a depuração, a tara, o silêncio, o tudo do momento
Ainda me olha, pareço persegui-la, mas a coexistência já é pacífica, já se fundem nossos mundos, já se mesclam duas realidades. 
Ela também me persegue, parece inevitável o abraço, os indícios já não são tão sutis. A minha intuição diz que vai rolar algo inevitável, que basta um gesto para que a palavra que me fascina se faça carne, fogo, paixão.
A moça tem um cheiro tão bom, parece água rosada, lânguida, transparente, aguardo que me revele seus dotes como faz comigo a poesia para que eu descubra a sua voz. 

5 comentários:

  1. Caramba, é certo que vou reler algumas vezes essa poética tão cheia de fascínio. José Carlos, fã da sua escrita eu já sou faz tempo. Mas a emoção de ter um texto tão cheio de poesia e com um halo de profecia, dedicado a mim, ah, ganho o dia, a noite e sentidos.

    Obrigada, querido!
    Beijos (e emoção)

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  2. Uma poiesis muito original meu caro José Carlos.
    Abraço e boa semana.

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  3. tem desejo
    que veste letra
    que veste ausência
    que veste mundo
    que veste poeta
    que nos despe tão bem...

    adorável manifestação de lirismo... e Tania, musa das musas, merece!!

    Beijos aos dois amados meus!!

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  4. Poética primorosa!

    (essa moça merece todos os mimos do mundo)

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