segunda-feira, 29 de julho de 2013

Entrelaces


Imagem: Cris de souza




Nunca interrompi o teu fluxo...
No corpo da página escrevo

O sabor da terra ou o calor da água
é um cavalo fogoso, chama 
que faz e se refaz alcançando 
o coração das palavras.

Porque no teu corpo alazão,
Oh! Meu cavalo selvagem,
é que respiro a tua chama 
acendendo a escrita
no meu corpo.

E antes que a luz decline
e outro sol não apareça,
abraçam-me em jorro
palavras que se liquefazem
[em febre alta].

São linhas sinuosas,
intensas e arredondadas
sílabas,
de onda em onda,

curvando-se em volume,
banhando-me nos teus sinais.

Reverencio os teus pendores
e acendo amorosamente
outra luz na imobilidade
aparente
das tuas mãos esquivas.

Deste vazio em que me encontro
eu te escuto, ou te perco,
ou te acho, agitando 
os braços e iluminando
o teu corpo.

Respiro por mais um instante:

O silêncio se esvai
nas palavras desnudas
e o teu corpo se oferece
ao meu olhar

Mostrando fotogênicos
sinais no branco da página
que a mão dispersa
sem os alardes das sombras

No leito alvo da árvore
repousa a substância 
do teu corpo neste poema.

(José Carlos Sant Anna)

(*Dedicado a Cris de Souza*) 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Do pretexto ao exílio

Imagem capturada no Google



Este exílio
de relevo sinuoso
e graça de porcelana
é um sopro no breu

Esqueça
na imensidão dele
o acordo tácito de iluminá-lo
como a um desfolhado malmequer

pois, são instantes, 
os mais difíceis da rota do sol,
pedra sobre pedra – palavras ardidas,

pimentas crestadas e ardentes,

e, ainda por cima, esquivas,
rilhando os dentes...

Verruma de cipó 
desprendido da árvore

raízes dos meus cofres sem fundo,
supostas mesas fartas...

copos tilintando palavras contra o vento...

pois, são palavras 
que se movem entre os sargaços,

despontando pela superfície azulada
do espelho giratório 
                             dos meus poemas cansados

Palavras, palavras, palavras  que me despem 
e mostram os ponteiros ausentes do relógio
e dizem da minha ânsia encurralada...

percorro as sílabas  com um olhar cego
e emolduro esta ânsia silenciosa
já perto da tua boca.

(José Carlos Sant Anna) 

domingo, 21 de julho de 2013

Poética

      Busto de Aristóteles
                                                                    Cópia romana de uma escultura de Lisipo  
                                              

                                                                         Para Tania Regina Contreiras,


A moça está longe. Nas minhas tessituras é como se ela não estivesse do outro lado, quase consigo tocá-la, tomá-la amorosamente nos meus braços e na minha imaginação.

A vida é desse jeito: às vezes irrompe uma ventania, outras, uma trovoada, o corpo vai se encolhendo, o cabelo caindo, enquanto a criada vai espantando moscas para que a gente não as engula com o bolo da comida amassada pelo garfo.

Sigo pensando nessas pequenas coisas sem tirar o olho da moça, que finge que não me vê através dos gestos suaves que faz com as mãos alisando os cabelos. Com tantas moscas em redor não há ritual plausível para o almoço, ainda mais se o prato principal está tão distante: a moça longe, na outra extremidade da mesa.

Já me inquieto quando ela me cumprimenta se rendendo às moscas. Sem se desfazer do lenço que usa para espantá-las, percebo o quanto aquela aparência de moça fina, embelezada pela vida, me seduz. Ela é agora a minha palavra. Ofereço-lhe o pão, pois o vinho ela já o sorve em goles generosos.

Escrever é um trabalho difícil, penoso, que exige muita disciplina, penso enquanto mastigo o pão, sem deixar que as entrelinhas absorvam este pensamento cartesiano para o momento, mas, de qualquer forma, devo comemorar a minha descoberta porque agora o meu olhar é outro porque a moça também é outra depois da saudação. 
A moça é outra, mas o meu olhar se perde no depois na fragmentação daquele corpo nas minhas mãos como se fosse a poesia, é o que faço com as palavras resgatando sua relação com a vida.

Aquele corpo merece uma atenção interessada como se fosse um lírio, um texto em estado puro que não se pode ler distraidamente. Não posso tomar aquele corpo como se não fosse algo extraordinário, desconcertante. Aquele corpo é a palavra que anima a minha linguagem, é o meu instrumento de trabalho, é a genealogia do meu espírito.

Não abordá-lo agora seria um gesto insano que eu cometeria, é como se fosse a minha literatura requerendo muita paciência, admitindo seus mistérios, afinal, ali está o corpo se oferecendo como as palavras, se descolando de si mesmo para surpreender com um leve toque nas minhas mãos: quase a desnudei com um único olhar ou quase o desnudei nos lapsos do tempo e da memória.  
A moça é a minha escrita, poderia me dar por satisfeito se, de fato, eu também não quisesse a moça da escrita numa baía rosada de amêndoas e avelãs. 

Ali está a minha concisão, o desejo, a depuração, a tara, o silêncio, o tudo do momento
Ainda me olha, pareço persegui-la, mas a coexistência já é pacífica, já se fundem nossos mundos, já se mesclam duas realidades. 
Ela também me persegue, parece inevitável o abraço, os indícios já não são tão sutis. A minha intuição diz que vai rolar algo inevitável, que basta um gesto para que a palavra que me fascina se faça carne, fogo, paixão.
A moça tem um cheiro tão bom, parece água rosada, lânguida, transparente, aguardo que me revele seus dotes como faz comigo a poesia para que eu descubra a sua voz.