quinta-feira, 20 de junho de 2013

Bilhete para uma sombra





Escrevo hoje para dizer-lhe
ainda qualquer coisa
do pouco que resta 
da história que 
sublevou nossos afetos

foi tudo
tão diverso do sonhado

mas a lanterna acesa
é a palavra viajando
até as raízes do meu desalento

e a tua voz onde tudo é carência
é um olho frio
no lapso da noite devorando 
as miragens
erguidas pelos caminhos

resgato teu nome
nas brasas do meu cigarro
como se fosse um alento

e percebo que 
nas frestas das pedras
o ar ainda se move

a palavra,
quando me sonegaram o vinho,
não se dissipou,
submergiu inteiramente

que não seja essa
a pequenez da minha fala
entrecortada

aprisionada pelo muro da incerteza
usurpando os beirais 
da solidão

pois, no varal,
os lençóis são bandeiras
aonde ainda tremulam nossos sonhos.

10 comentários:

  1. Um belo bilhete caro José Carlos.
    Abraço.

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  2. Tenho ido ou vindo pouco aos blogues ultimamente, mas não deixo que me escapem os que me movem. Tua poesia me move. Saio ruminando versos ( usurpando os beirais
    da solidão!!!). São muitas as facetas do poeta. As "meditações bizantinas" ´são um belo cartão de visitas. Para ser lidas e relidas sempre. No mais, lembro uma definição que gosto muito e que tendo a concordar que sim: poeta é quem tem no DNA a doença incurável do mistério. E vejo ele aqui...rs

    Beijos,

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  3. que magnífico Zé, poema de dar inveja


    abração

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  4. Acho tão poética a imagem do varal... o estático a acolher movimento, luz... e por isso se estende longe!!

    Não é esta uma das funções da palavra: enxugar nossas carências!?

    Adorei o texto!!

    Beijo, meu amigo poeta!

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  5. Que verve!

    bilhete
    para um sonho:
    a sombra
    só pode ser
    sonâmbula

    ...

    Beijo, poeta que admiro.

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  6. Gosto sempre de teus poemas, JCarlos!
    As palavras falam vivas, verdadeiras.

    Beijo pra você.

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  7. Muito bom. Algumas imagens que você usa também já utilizei ou pelo menos fiz planos de utilizar. Bom se ver. Abração!

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  8. Marcas que geram anseios...
    Muito bom, José Carlos!

    Abraço

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  9. Um poema que conta uma história, ao longo do tempo o vento que não leva tudo, fica este tremular de emoções a ressoar...

    Abraços, poeta

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