sexta-feira, 7 de junho de 2013

As águas buliçosas de um sonho do outono



I
O assoalho estremece. 

II
Não me perguntem nada agora, pois a mesa cogita qualquer coisa sem que, em volta, como se fosse uma Santa Ceia, se saiba porque exala um forte cheiro de maçã pela casa. Há uma luz redonda que entra pela janela deixando que todos vejam os momentos íntimos do quarto do casal. 

III
O assoalho estremece mais uma vez sem esconder sua memória, enquanto resplandecem no vão central os passos dos coadjuvantes da casa, usando charmosos aventais. Ágil o gato pula a janela. 

IV
A música sobe redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara. O corpo é içado para o alto, adoraria apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu pensamento sem que eu saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar. 

V
Os neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios entrançados nos fios loiros dos cabelos da menina. Gotejam dos meus dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo de partilhar com ela os movimentos da dança. 

VI
Vai alta a música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que estremece. 

VII
Há qualquer coisa de sinistro no sorriso da menina despertando a  manhã. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no  corpo esguio e sedutor por onde entra a minha pena.

VIII
O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem que nada lhe impeça o voo, é a imagem excessiva dessa presença que rumoreja como um grito de um náufrago. 

IX
É uma coisa tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço, aguardando a trovoada que desaba inundando o meu corpo. 

X.
Soberba água, fogo consumido.

6 comentários:

  1. Belíssima sequência de textos poéticos meu Carp José Carlos.
    Abraço e bom início de fim de semana.

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  2. Isso aqui me pareceu, de qualquer forma, um ápice:

    "O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem que nada lhe impeça o voo, é a imagem excessiva dessa presença que rumoreja como um grito de um náufrago".

    Uma sequência envolvente, que me fisgou bem aí...

    Beijos,

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  3. esta água que ferve, este fogo tão líquido
    como cinzas no oceano: há de se velar a ardência
    reverenciar os vapores



    abração

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  4. I
    O assoalho estremece.

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    X.
    Soberba água, fogo consumido.

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  5. saí à francesa intencionalmente!

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  6. Linda, tua composição poética!
    Li e reli, encantada com o jogo das palavras.

    Abraço dos grandes.

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