sexta-feira, 7 de junho de 2013

As águas buliçosas de um sonho do outono



I
O assoalho estremece. Outrora, pedra azuis e clareiras vermelhas. Não estremecia. Murmúrios ignorados nas suas membranas. Mas nada se perde. E tudo se oferece debaixo dessa bruma. No tronco mais silencioso da casa, ela me disse alguma coisa sem que eu tivesse ingerido uma gota de vinho. Àquela altura, já me embriagava sob a tua pele. Acho que foi o nome. O seu nome de batismo. Mas não! 

II
Como se fosse uma fábula iluminando a noite. Mas não me perguntem de onde vem o bulício de vozes. Nada parecido. Algo nebuloso, algo como as palavras têm cor e cabelos, quando à mesa se cogita qualquer coisa, como se no esplendor suave houvesse uma Santa Ceia, ou qualquer outro destino. Todos se perguntam porque exala um forte cheiro de maçã pela casa, enquanto uma lua redonda entra pela janela deixando que todos vejam os momentos íntimos do casal. A terra molhada. A boca na maçã, laranjas maceradas. A densidade. A leveza. Em torno das palavras o rumor porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão.  

III
O assoalho estremece outra vez mais sem esconder sua memória, enquanto resplandecem no vão central os passos dos coadjuvantes da casa, usando charmosos aventais. Ágil, o gato pula a janela. Tudo que do amor se diga, a água que me falta e o olhar cúmplice. Essa que me visita, este que a deseja, e a nudez do silêncio, e a nudez do corpo, e nos cálices o rumor da água, do vinho e o fogo de que são feitos os homens. E o desejo de te inventar alimenta a chama obscura. E não cessa. 

IV
A música sobe redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara. O corpo é içado para o alto, adoraria apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu pensamento sem que eu saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar. Essa esperança convicta e a certeza do nada. as constelações verborrágicas solapam as pedras obsequiosas. De que somos feitos agora?

V
Os neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios entrançados nos fios loiros dos cabelos da menina. Gotejam dos meus dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo de partilhar com ela os movimentos da dança. 

VI
Vai alta a música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que estremece. Suave ondulação. Minuciosa. Música em lâminas finas, rasgando as pedras complicando este mistério tão frágil.

VII
Há qualquer coisa de sinistro no sorriso da menina despertando a  manhã. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no  corpo esguio e sedutor por onde entra a minha pena. Mãos e olhar se repetem, resplandecem. Sopro transparente, a água ainda me falta neste labirinto. Uma voz prolonga a melodia e doçura de não haver outra sombra por dentro das manias.

VIII
O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem que nada lhe impeça o voo, é a imagem excessiva dessa presença que rumoreja como um grito de um náufrago. Ela tem aragem nos pés sob as sandálias que voam sob o chão desnudo. Vou gozando com a boca ressequida, enchendo-a de sonho.

IX
É uma coisa tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço, aguardando a trovoada que desaba inundando o meu corpo. O melhor de mim. A tentação ainda latente. Tu que me afagas também derrete meu chumbo num caminho de estrelas...  

X.
Soberba água, fogo consumido. 

(José Carlos Sant Anna)

6 comentários:

  1. Belíssima sequência de textos poéticos meu Carp José Carlos.
    Abraço e bom início de fim de semana.

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  2. Isso aqui me pareceu, de qualquer forma, um ápice:

    "O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem que nada lhe impeça o voo, é a imagem excessiva dessa presença que rumoreja como um grito de um náufrago".

    Uma sequência envolvente, que me fisgou bem aí...

    Beijos,

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  3. esta água que ferve, este fogo tão líquido
    como cinzas no oceano: há de se velar a ardência
    reverenciar os vapores



    abração

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  4. I
    O assoalho estremece.

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    X.
    Soberba água, fogo consumido.

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  5. saí à francesa intencionalmente!

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  6. Linda, tua composição poética!
    Li e reli, encantada com o jogo das palavras.

    Abraço dos grandes.

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