sexta-feira, 10 de maio de 2013

Transfigurações ou o Outono no Rio


                                    Copacabana by Fenisio


                                                              Um conto para Cris de Souza 

I
Pendem as palavras. Ipanema oscila em lapsos de sol. No momento, sou um homem de paletó e gravata perdido no centro, quase um favelado sem morro, enquanto o convite extravasa um mísero átomo e a precocidade vem à tona.

II
Fiquei sobressaltado. Um pontapé no meu focinho seria pouco por não encurtar a distância. Agora estou no desamparo por causa de um pequeno deslize. Entre o bulbo da maçã e a minha altivez, abro os braços ao caminhar pelas ruas da cidade.

III
Mantenho a pose. Se algo ocorreu, nem o tabelião protegerá as joias da coroa, e as fantasias tropicais são um simulacro de armadilha do destino singularíssimo na minha condição mortal de adulto. É o que soa no intervalo do percurso do táxi que me leva para onde eu ainda não sei.

IV
É tudo tão superlativo. Os lençóis já estão lavados, as fronhas ainda umedecidas. Longe eu poderia entendê-la melhor. O amolador de facas me disse que ainda anda sem notícia e o arqueológico agora é a barba por fazer surfando nas águas do Arpoador.

V
Arrebatado, procuro outra Ofélia. Aquele incêndio foi apenas um incidente na cave maldita. Será preciso mudar. Todo meu descuido deixou Paris mais longe e o meu hotel é uma roupa de banho.

VI
Restam os espectros ao pé da página. O livro grava a minha voz, e as tranças reverberam em leito alvo, lúcidos pergaminhos que as minhas mãos tocam enquanto oscilam as cortinas e a música na penumbra me embala.

VII
Se calha, o tempo melhora para que eu possa dizer-lhe que por aqui passei e, então, poderei ouvir a tua voz  em líquida impulsão enquanto fico olhando na superfície do mar as gaivotas em voo rasante.

VIII
Mas ainda queria dizer-lhe que não sou um fugitivo. A biografia do bondinho de Santa Teresa atraiçoou o mais íntimo do incerto olhar que o sol descorou.

IX
Ainda te imaginei vestida de veraneio, isso é o que eu sei. Sem passar pelo ridículo que eu já conheci uma vez, fumava e bebia como outrora olhando o mar. E ainda pendem as palavras no alto dos morros.

X
As miudezas da vida se curvam enquanto uma bicicleta me arrasta, num movimento que me faz bem, pedalando contra o vento. Orlo a minha loucura na orla dessa baía e, enquanto a tarde morre, enleio-me, e guardo as minhas desmemórias para outra ocasião.

6 comentários:

  1. Delícia de conto, José Carlos!

    Abraço e parabéns por ele.

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  2. Um conto maravilhoso, imagens lindíssimas!

    Beijos,

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  3. em frames, quadros, uma grande angular
    julgo em juízo que o rio jazz


    abraço

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  4. Que verve! Não sei se mereço mas me sinto honrada... A descoberta da tua lírica foi uma surpresa e tanto, você é um escritor espantoso. Muito obrigada!

    Beijo, caríssimo.

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  5. Contra o vento, contra o tempo, os ensaios de vida são sempre um tactear: à mercê dum vislumbre, dum acaso, duma ideia luminosa...
    Grande conto, José Carlos!

    Abraço

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