quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lição de vida



O jumento empacou no barranco quando passava pela porta de D. Milu. Quando meu pai viu a cena, gritou pela cerca que atravessava o quintal da vizinha para chicoteá-lo, aí quem empacou fui eu. O jumento carrega quatro barricas de água no lombo, comigo na canga, e meu pai me pede para chicoteá-lo, eu não entendi e, também, não obedeci. Éramos dois animais empacados, pois eu não sabia como descer do lombo do bicho, subi carregado, só poderia descer dali tirado por alguém, era esperar pelo velho e aguentar no meu lombo o que viria de castigo por não saber conduzir o animal. Mas ele devia estar ocupado com a minha mãe porque não veio me tirar de cima do bicho e fazê-lo subir o barranco. Só mais tarde eu aprenderia com Ibrahim Sued que jumento não sobe escada.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Como se eu respirasse o teu corpo


como a tua babucha me excita
quando danças no meio da sala,
menina das pernas roliças!

quantas vezes! eu perdi a conta
e também o sono 
na malícia do teu sangue

porque nenhum elfo sabe
quando range o meu dorso
ou ruge o teu corpo

e na boca fechada com o dedo
me pedes para manter o segredo
entre os lençóis amassados

nenhum elfo sabe
quando a Ibéria de Albéniz eclipsa a noite,
ou Paco de Lucia encordoa a sua lira

enquanto juntos afogamos as canções
em contrações ritmadas

nenhum elfo esconde
quando a seiva sobe como um espumante
e nenhum  outro rumor abafa os gemidos

alcançando a pele que se arrepia
na ânsia da língua convulsa



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Convite: Lançamento do livro Big Brother Brasil e outros cordéis


                  O que se lê nas abas do livro

Se não é novidade para você, leitor, o universo mágico da poesia popular, alinhe-se para uma leitura de 11 textos carregados de humor e de ironia em que o cordelista Antonio Barreto, além de, permanentemente, indagar-se sobre questões sociais e de comportamento, revelando a um só tempo qualidade e alcance nas suas indagações, leva-nos também a refletir sobre o papel da literatura através da experiência de homem e de poeta encontrado em seus cordéis.

Embora os textos de cordel se inscrevam na linha do jornalismo popular, e o de Barreto não trilha caminho inverso, deve-se estar atento à sua capacidade de recriação das notícias, dos fatos, para que possamos apreciar a depuração de linguagem alcançada em cada um dos cordéis aqui enfeixados, sem perder o fio das tradições básicas. Basta olhar o modo como o cordelista, por exemplo, explora os fatos ligados à história de Maria Felipa, pois, na história dessa heroína, além do tratamento dado ao ritmo e às rimas, os fatos são narrados com leveza, graça e humor que cativam o leitor.

Sem desconhecer quanto são efêmeros os folhetos de cordel de fundo jornalístico, e os de Barreto não são exceção, suas contribuições são significativas no painel da história contemporânea em que se inscreve o autor.

São textos que revelam um amadurecimento tão grande do cordelista Antonio Barreto, que é leitura obrigatória para os seus admiradores, que não são poucos, quanto o é, a qualquer outro leitor, que aprecie um texto construído com verve e humor, como os que são apresentados aqui.
Boa leitura!

José Carlos Sant Anna
 Editor



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Transfigurações ou o Outono no Rio


                                    Copacabana by Fenisio


                                                              Um conto para Cris de Souza 

I
Pendem as palavras. Ipanema oscila em lapsos de sol. No momento, sou um homem de paletó e gravata perdido no centro, quase um favelado sem morro, enquanto o convite extravasa um mísero átomo e a precocidade vem à tona.

II
Fiquei sobressaltado. Um pontapé no meu focinho seria pouco por não encurtar a distância. Agora estou no desamparo por causa de um pequeno deslize. Entre o bulbo da maçã e a minha altivez, abro os braços ao caminhar pelas ruas da cidade.

III
Mantenho a pose. Se algo ocorreu, nem o tabelião protegerá as joias da coroa, e as fantasias tropicais são um simulacro de armadilha do destino singularíssimo na minha condição mortal de adulto. É o que soa no intervalo do percurso do táxi que me leva para onde eu ainda não sei.

IV
É tudo tão superlativo. Os lençóis já estão lavados, as fronhas ainda umedecidas. Longe eu poderia entendê-la melhor. O amolador de facas me disse que ainda anda sem notícia e o arqueológico agora é a barba por fazer surfando nas águas do Arpoador.

V
Arrebatado, procuro outra Ofélia. Aquele incêndio foi apenas um incidente na cave maldita. Será preciso mudar. Todo meu descuido deixou Paris mais longe e o meu hotel é uma roupa de banho.

VI
Restam os espectros ao pé da página. O livro grava a minha voz, e as tranças reverberam em leito alvo, lúcidos pergaminhos que as minhas mãos tocam enquanto oscilam as cortinas e a música na penumbra me embala.

VII
Se calha, o tempo melhora para que eu possa dizer-lhe que por aqui passei e, então, poderei ouvir a tua voz  em líquida impulsão enquanto fico olhando na superfície do mar as gaivotas em voo rasante.

VIII
Mas ainda queria dizer-lhe que não sou um fugitivo. A biografia do bondinho de Santa Teresa atraiçoou o mais íntimo do incerto olhar que o sol descorou.

IX
Ainda te imaginei vestida de veraneio, isso é o que eu sei. Sem passar pelo ridículo que eu já conheci uma vez, fumava e bebia como outrora olhando o mar. E ainda pendem as palavras no alto dos morros.

X
As miudezas da vida se curvam enquanto uma bicicleta me arrasta, num movimento que me faz bem, pedalando contra o vento. Orlo a minha loucura na orla dessa baía e, enquanto a tarde morre, enleio-me, e guardo as minhas desmemórias para outra ocasião.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

As luzes da cidade me encaram



ainda há pouco a golpes de machado
descerrei as luzes da cidade
e os orvalhos da ilusão

apagando a fachada do crepúsculo
que dançava no poente
pálidos raios de sol

não me culpo
um vestígio estremece na garganta
desterrando meias-palavras

no fundo aguardo
o deslinde do musgo que espera
a luz recair sobre a minha voz,

pois, ainda há pouco, todos sentiam
o silêncio de cada coisa no ar:
um alento diluviano distendido

uma sílaba escandida 
que sobrevivia,
diáfana, 

uma agulha asfixiada no palheiro
como um nada.