quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

despenteando as palavras na quarta-feira de cinzas








adeus, melro. não acabara de escrever essa frase e me dei conta que o filme não saíra da minha cabeça, legítimo, intacto, ainda que fosse uma cena que eu guardasse na memória sem o saber, mas isso pouco importava nas moedas descoloridas que iluminavam o cenário.
disperso, até que acabasse tudo o que era meu, perdido, ali sentado na acolchoada poltrona do cinema, percebera que não adiantava insistir porque a história se confundiria com outras.
O que sei é que essa história jamais seria contada por qualquer outro cineasta, e o que havia, já tinha sido posto no dia de hoje, bastava; e digam o que quiserem dizer há de chegar a minha vez sem que me digam o que me aguarda, ainda que seja uma surpresa, pois lhe digo que aprendi atravessar o samba na avenida antes que o tango se tornasse um achado entre los hermanos.
se eu não me engano, dizem que o tango é a língua dos pés de valsa, nasce pronto e, ainda por cima, rápido, com apenas um olho, incandescente, para andar comigo, para ensinar-me de onde partem todas as linhas, que a mim pertençam ou não, que dialoguem entre si, sobretudo, sejam destinos sem dono, mistérios que se comuniquem, onde tudo comece para chegar aonde meus olhos alcancem o verdadeiro tamanho da falta de quem ama.
o poeta gosta de saber o que queres que ele te diga por que lhe agrada ter horas antes das horas à procura do silêncio. É a isso que ele busca, é isso também o que lhe basta.
eu que não sei o que faço quando me ponho a escrever, descubro que a montanha se move, pois escrever é ter uma caneta à espreita, se bem entendido.
eis, pois, a folha branca, não sei se sairei com as cajás no meu embornal depois de tanta caipirinha no meio da pipoca.
agora acendo um cigarro e, enquanto a fumaça se dissipa no abismo da minha sede, aguardo que a febre do dia passe com o perdão da minha nudez na manhã dessa quarta-feira de cinzas ensolarada.

5 comentários:

  1. A febre do dia passará, nobre poeta!

    Abraços

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  2. Nada como uma quarta-feira ensolarada para mover alguma montanha em silêncio... bjo

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  3. Com o perdão da minha nudez é das melhores frases que já li!!
    e é também um belíssimo título!
    impactante.

    beijoss :)

    e saudades de você...

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  4. "desacinzentou"... colo.rindo a quarta, a quinta, a sexta...

    :o)

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  5. a folha branca é desígnio do vocábulo
    na solidão de tantas sílabas,


    abraço


    p.s. baiano e sertanejo, sim

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