quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

cantiga de amigo




um imenso silêncio
é tudo quanto existe no quarto,
além da ânsia, da ruína do amor
e da inexpugnável liberdade

inútil disfarçar esse ritual do corpo
no caminho ao vento

ela busca um íntimo mar
e, ainda que pense que
pode ser nefasto esse mergulho,
sacode o pó de cada dia,
deixando pegadas  na areia movediça.

na sua fome de ternura,
enche a talagadas a boca de espanto
no signo traçado pelo destino.

ressequidos,
os lábios emudecem,
mas ela se reconcilia com a lágrima,
abranda a sede
na nuvem que recobre a pele,
sentindo um leve rumor d’água
que se oferece como orvalho.

e, com os olhos bem abertos,
um leve rubor nas faces e as mãos crispadas,
ouve ao longe uma voz que diz:

nunca existiria essa história se não fosse
o velho blues ávido pela cena de cinema.


4 comentários:

  1. Apesar de eu estar usando apenas o que me resta, absorvi, sim, os teus versos, mas não em toda a plenitude que eles merecem, confesso. Mesmo assim, consegue-se percebê-los e senti-los. Inexplicável é isso.

    Parabéns, nobre poeta!

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  2. Congelei aqui:

    inútil disfarçar esse ritual do corpo
    no caminho ao vento


    Abraço!

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  3. Nesse mesmo traço que você navega, na mesma rua, um caminho delineado no poema, sempre sigo sem pestanejar e lá já estou, conduzida de olhos fechados, nesta mesma fome de ternura.Bjo, meu caro.

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  4. Nossa! Estou fascinada por esse JC 2013!
    Se o 2012 era ótimo, esse nem se fala :)

    beijoss

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