quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

cantiga de amigo




um imenso silêncio
é tudo quanto existe no quarto,
além da ânsia, da ruína do amor
e da inexpugnável liberdade

inútil disfarçar esse ritual do corpo
no caminho ao vento

ela busca um íntimo mar
e, ainda que pense que
pode ser nefasto esse mergulho,
sacode o pó de cada dia,
deixando pegadas  na areia movediça.

na sua fome de ternura,
enche a talagadas a boca de espanto
no signo traçado pelo destino.

ressequidos,
os lábios emudecem,
mas ela se reconcilia com a lágrima,
abranda a sede
na nuvem que recobre a pele,
sentindo um leve rumor d’água
que se oferece como orvalho.

e, com os olhos bem abertos,
um leve rubor nas faces e as mãos crispadas,
ouve ao longe uma voz que diz:

nunca existiria essa história se não fosse
o velho blues ávido pela cena de cinema.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

eu ainda queria alcançar a sua mão



a foice, o sol
e o amor esvaindo-se
em onda revolta

a foice, o sol
e a corrente de um rio
em ciranda de roda

à beira de uma nascente
onde o teu canto é flauta doce
como se tarde não fosse

e o imprevisível dizendo "bom-dia"
à espera desse trem
para levar-me aos teus braços.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O primeiro sol



Se antes eu soubesse disso,
recuaria algumas milhas
para colher os frutos
que se irrompem da terra.

Traduzo-a tão bem,
é o que me dizes sem rodeios.
Mas onde nasce o sol?
E onde moram as palavras?

Como se o teu corpo tivesse
outro espelho confundem-me 
as imagens e o dia da véspera 
alastra o que quiseste despertar 
em mim.

É das águas que falo
ou das músicas das cítaras?

E o teu lenço de linho
agasalha bem o teu pescoço?
Ou o esqueces nos ombros
com um desalinho casual?
Ou preferes agulhas nuas
crispadas até sangrar
na sala de brinquedos?

E o teu cheiro pela manhã
é de eucalipto ou de romã?

De tanto amar perdem-se os anéis
Mas não se morre de amor
Sentado no terraço da casa
num verão reinventado.