sexta-feira, 14 de julho de 2017

Adivinhação




Milhões de crianças chorando
    na noite esférica.

Por que choram?
                           Não são
               elas que choram.

                       É o futuro.

É a vida ainda não vivida.
São crianças no escuro
    chorando por adivinhação
    do acontecer.

Ricardo. Cassino. In: ______. Os sobreviventes. 
Rio de janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971. p. 21

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Perfurocortantes

Virgílio Moretzsohn Moreira

Não são ossos,
um dente escondido,
oblíquo,
alongadas mãos
traços de vida representados,
fibras em cadeia que o corpo deve ter,
colcha azulada para o meu
frio,
um sol telefônico
chegante,
olhos pendurados
pela expectação.

Era a sensação de que seria consertado,
adivinhado,
no domicilio do meu desejo.
Ela se correspondia com as vésperas
do meu anúncio.

E quando,
agora,
me instrumentalizo
com os perfurocortantes
da interrupção
só eu mesmo me oxigeno.

Cumpro-me em carbonizado silêncio.

MOREIRA, Virgílio Moretzsohn. Perfurocortantes. In: Revista Brasileira de Língua e literatura, Rio de Janeiro, ano II, número 5, 3o trimestre de 1980.


Virgílio Moretzsohn Moreira, poeta, ensaísta e jornalista. Obras: Chão de Dentro (1982), 80 Crônicas em Forma de Poema (1982), O Síndico da Noite (1982), Fardados de Azul, entre outras.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O negócio é a busca (poema de Frank Jorge)


PELA TRANSCRIÇÃO


Frank Jorge é gaúcho. Nasceu em 20 de setembro quando se comemora a Revolução Farroupilha. Orgulha-se de ser torcedor do Internacional ainda que esteja na Série B do Campeonato Brasileiro. Fez Letras e acumula a experiência de ser músico.

Como é mesmo este negócio de buscar a beleza
para colocá-la num texto?
Isto se aprende, isto se ensina?
É preciso ter bom senso?
É preciso ter rima?

Como é mesmo este negócio de buscar a natureza
para tornar o condomínio menos enconcretado.
Isto é verdade, isto é mentira?
A mulher vive o dilema de ser ela mesma ou ser uma menina?

Como é mesmo este negócio de buscar o amor
e torná-lo natural dentro da sua vida?
Isto é necessário?
Pode ser coisa da cabeça ou tem que ser coisa sentida
Suaviza nossa alma?
Traz novas feridas curando as antigas ou permanece quieto
gerando incertezas e perguntas repetitivas?

A propósito buscar beleza, natureza e amor
é coisa de eu-romântico.


In: JORGE, Frank. Crocâncias inéditas. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 2001.
Jorge Frank é o pseudônimo de Jorge Otávio Pinto Pouey de Oliveira

segunda-feira, 28 de março de 2016

Meditando



É perigoso
adensar as palavras
sobretudo se 
a interlocutora vira a cabeça
para o lado esquerdo.

Ou se ela me olha
mexendo nos cabelos
fazendo charme...

Imperceptível
vejo suas mãos crescendo
como os "coxinhas"
pedindo intervenção militar
no país.  


(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

No tempo das carruagens

Um coupé de gala, Museu Real de Arte e História, Bruxelas

O que faço da espuma
e da tua calcinha molhada?
É amor inocente ou sedução?...

E da chaleira incessante,
pura fervura
ou apenas um instante
de sofreguidão?

E do roçar dos corpos,
e da dança do ventre,
e dos orgasmos
no meio da multidão?

É um faço ou não faço
criando papéis ornados
do mais intenso tesão...

E o que posso mais dizer, então?

:)  Ah! é muito pouco
ter os bicos rosados na palma da mão!


(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Ilha

O desafio é a ilha

adormeço 
sem saber o nada

e a respiração que ouço de mim
é um círculo vazio
- efêmero pulsar

que a boca na espessura das sílabas
balbucia firme quando tudo passa

Imóvel folha como se não fosse

espiral e branca

a ilha
iminência vaporosa
flutua

não há outro ruído de vozes
como se ali não as houvesse

cintilante prodígio que se esvai
suavemente persistindo

mas não a alcanço com os meus braços

dissipo o meu ócio

a ilha

modela as figuras 
uma a uma
no tapete invisível resplandecem

sopro as palavras sobre um abismo
que as recolhe nervos e ossos
e na limpidez 
desaparecem vazias

arfando, olhar de lobo, exausto,
dissolvo as minhas tensões nos maxilares

depois, polido, estendo-lhe as mãos. 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Escrevo

Brooke Shaden

hoje escrevo rasgando 
páginas da memória 
dessa árvore

e sem fatigar-me com tamanha lida
procuro a fugidia voz
da nascente

os dóceis animais silvestres
o outono pintado de azul
no alpendre da casa

a faixa de pedestre 
[descongestionada para os teus pés]

uma música urgente 
e palavras cansadas na folha nua 
sobre a mesa da cozinha

escrevo para não esquecer
o muito que te pedi:
essa manhã de água sob as palmeiras 

uma secreta lua,

ou simplesmente que subisses comigo
ruidosa
sem confundirmos os passos

e que, no mais fundo do teu ser,
sentisses o sol nupcial
da minha língua 

ondulando em tua vulva. 

(José Carlos Sant Anna)





sexta-feira, 19 de junho de 2015

Linhas cruzadas






– Vai, me abraça, me aperta, me prende em suas pernas,... – Enquanto ela sussurra nos seus ouvidos estes versos da MPB, ele pensa "que safadinha não sei mesmo o que ela quer..., mas já tenho certeza do que estou prestes a perder...”
Depois ela diz com lágrimas nos olhos que não voltaria mais àquele quarto. Era a última vez que se encontravam nas tardes mornas do verão, assim às escondidas, pois eles sempre souberam que aquela relação não tinha passado nem futuro, era só um presente que se acabava a cada vez que repunham a roupa, fechavam a porta do quarto do hotel e saíam.
Se acontecia alguma coisa depois, era um ou outro telefonema na maioria das vezes para marcar um novo encontro em que, fervorosa, ela diria, atropelando as palavras, que precisavam se encontrar... que ela tinha uma surpresa... ele ia adorar... que já estava feito lagartixa, subindo pelas paredes... que esta semana já tinha se masturbado duas vezes pensando nele... que aquela escola estava lhe roubando todo o tempo que dispunha para ficar com ele... que não sabia por que fazia aquela pós, uma vez que o que precisava mesmo era ganhar algum dinheiro... que ele não ligava pra ela... E perguntava-lhe seguidas vezes e você? E você? Pensou em mim? Ficava na linha ouvindo a sua respiração, em muito parecida com a dela, ofegante, do outro lado.
Ela vestia a roupa cabisbaixa, cobrindo primeiro os seios, acariciando-os antes de cobri-los com o soutiã, como se ainda fossem as mãos dele, bolinando-os, depois põe a blusa e começa a fechar os botões sem pressa. Pega a saia sacudindo-lhe a poeira, pois ela ficara no chão, estira sobre a cama, empina a bunda, para mostrar-lhe o que ele estava perdendo ao deixá-la ir embora, em seguida, veste-a, sem pôr a calcinha, que ficara enrolada numa cadeira como se fosse um canudo, apanha a bolsa, os livros e cadernos que trouxera nas mãos, e sai sem dizer uma palavra. Era definitiva a separação, é o que ela parece querer dizer.
Com impulso, ele avança sobre calcinha desenrolando-a lentamente, depois esfrega no seu nariz e aspira aquele odor excitante que ficara ali, para sempre, guardando-a como a um troféu. E, em seguida, pela janela, vê quando ela atravessa a rua em direção ao ponto de ônibus. Ainda espera debruçado, olhar perdido, até vê-la fazer um sinal para um taxi.
Ele balançava a cabeça do outro lado da linha, sem que ela percebesse o movimento que fazia. Abria a gaveta da sua mesa de trabalho, olhava o retrato dela escondida entre os seus papéis, rascunhava a palavra “muito” várias vezes numa folha de papel, sabia que o dia em que levasse essa questão para o seu analista fundiria a cabeça dele. Que seriam dezenas de sessões para decodificar a palavra ‘muito’ rasurada n vezes em pedaços de papel, quando não vinha acompanhada da palavra Maria. E ficava mudo em seguida.
E ela perguntando se tinha acontecido alguma coisa, porque ele estava tão calado, se não queria mais vê-la, o que ela tinha feito de errado... Se ele sabia que ela já estava  depilada porque não queria que a visse peluda... Se isso não o deixava excitado... que não aguentava mais aquela casa, lavando pratos o dia inteiro... E ameaçava chorar, em seguida dizia “não, ele não vai ter o prazer de me ver chorar”..., baixinho, mas ele a ouvia do outro lado e, quando ela perguntava se ele tinha ouvido alguma coisa, dizia-lhe que não... 
Na cabeça, ele ruminava um monte de perguntas enquanto o canal Brasil exibia Luz e Trevas, o bandido da luz vermelha. Seus olhos não piscavam olhando a telinha em que Ney Matogrosso, de calça clara, sem camisa, barba por fazer, atrás das grades questionava tanto a sua vida, comparando-a a um pêndulo que não sabia o que queria, oscilando de um lado para o outro, quanto ele o fazia agora por motivos diferentes.
A vida é assim, um turbilhão de desafios que um domingo à noite deságua quando a perspectiva da segunda feira vem à tona e ele, naquele instante, fingindo que acompanhava aquela história já apagada da memória de quase todos que conheceram o seu lado trágico, olha para trás e percebe que fora mais um domingo a escorrer chocho por entre os dedos, e que ele nada fizera para engrandecê-lo, nada de útil fizera, além de ter tão somente zapeado pelo mercado, tal como o fizera ainda há pouco com a TV – até se deparar com Ney Matogrosso na pele de ator –, escolhendo frutas e legumes para a semana vindoura. Era o que fazia de melhor atualmente.
Ficava horas zanzando no mercado. Para ele, entrar no mercado e sair pelos seus corredores, olhar atento em cada rótulo, examinar cada produto como se fosse um fiscal da vigilância sanitária, mas sem mover uma palha para denunciar qualquer anormalidade encontrada, era uma descoberta nova. Quase uma nova paixão. 
Seguia arrastando o chinelinho, esmaecido de tanto sol que recebia na varanda de apartamento, que ele não se dispunha a trocá-lo, embora já tivesse um novinho em folha. Ela lhe dera no último encontro, e seguia apalpando tudo que lhe despertasse uma contemplação vaga nas prateleiras e gôndolas do mercado.
Daquela tarde distante o silêncio é o que resta no vale-tudo das chamas do escritor barroco, redundante, prolixo, como ela o rotulava, só para provocá-lo. Os dias se movem e que culpa se tem pela sua peregrinação? Pela corrida sem freios? Pela dança milenar?